30 de out de 2017

Algorítmos como grilhões para Conhecimento e Inovação

Por: Eliana Rezende


Há tempos venho pensando, e com certo incômodo, sobre de que forma o Marketing e todo seu arsenal de ferramentas digitais é em última instância um limitador para a produção de Conhecimento e Inovação.

A partir do desenvolvimento de ferramentas com fins claros de determinar perfis, gostos, nichos e vontades dos consumidores uma lógica perversa se deu.
Observe:
Todas as vezes que realizamos uma busca, qualquer que seja, imediatamente algoritmos começam a selecionar quais as respostas que são as nossas preferidas, e dia-a-dia, pesquisa após pesquisa começam a aprender sobre nosso perfil, nossos gostos e desgostos. Isso por si só não seria o problema. O problema piora logo a seguir, pois para haver uma customização de nossos gostos e preferências, quase sempre somos levados aos mesmos lugares e quase que invariavelmente, às mesmas velhas respostas. É a famosa existência dentro de uma bolha.


Quase sem notarmos estaremos fornecendo um padrão de comportamento que ao incluir determinadas opções exclui uma outra gama de possibilidades e alternativas diversas.

Vista sob esta ótica, a internet é portanto, finita e cerceada.
Explico:
As opções são infinitas até a primeira pergunta lançada em um buscador. A partir daí somos levados a andar por caminhos escolhidos por nós e armazenados por algoritmos. Quanto mais eficientes forem, mais nos tirarão possibilidades e caminhos inusitados. Andaremos em círculos, visitando sempre os mesmos lugares, pessoas, respostas, atividades, temas...

Nesta construção, as possibilidades de inovação e de sermos apresentados a algo completamente novo e diferente reduzem-se cada vez mais, a quase zero.

Uma vitória para as áreas de Marketing que querem em verdade vender um produto, ao mesmo tempo em que nos transforma em um. Embalados e vendidos ao mercado para sermos potenciais consumidores deste e daquele produto. Os algoritmos acabam por tornar a liberdade um produto quadrado e previsível, repetido infinitamente.

É uma lógica sem benefícios para nós usuários em uma primeira instância, mas com certeza a todo o conjunto da sociedade em um nível e alcance ainda maiores.

Ao acontecer esta lógica de mercado, ergue-se o muro contrário a toda e qualquer possibilidade de produção de Conhecimento e Inovação de forma espontânea. A internet, seus algoritmos e buscadores, fazem o contrário do que Conhecimento e Inovação necessitam. Afinal excluem o novo, o diferente, o inusitado. Levam-nos sempre aos mesmos lugares e por consequência às mesmas respostas e caminhos. Sair deste circulo vicioso e tortuoso requer por parte do que busca Conhecimento e Inovação é um esforço extra: significará muito autoconhecimento.
Precisará se ter consciência do quanto está limitado dentro destes caminhos para tentar fugir desta  lógica cega e consumista tão favorecida por algoritmos, e tão amplamente usada pelo Marketing em geral.
E ainda não incluo aqui um outro conceito que é o de invenção. Muitas vezes até confundido com inovação. Mas que não é o caso aqui.
A inovação não necessariamente requer uma invenção! Na maior parte das vezes eles exige muito menos de quem a propõe, já que esta baseia-se em algo que já existe e faz simplesmente uma adequação, ampliação, um novo uso. Mas mesmo tomando-se a conceituação de inovação neste sentido, ainda temos muita limitação gerada pela forma como hoje buscadores e diferentes áreas se utilizam destes algoritmos. 

Daí a afirmação que, ao invés de estarmos com alto grau de desenvolvimento tecnológico e de grandes descobertas, na verdade andamos às voltas com os mesmos lugares, respostas, caminhos. Em pouco tempo teremos um universo feito de restrições potenciais que só poderão ser quebradas por sujeitos conscientes e independentes. Algo cada vez mais raro, já que as pessoas cada vez mais delegam a botões, buscadores e algoritmos o que pensam ser a melhor escolha. O estatuto de "verdade" que grandes buscadores como Google alcançam no imaginário popular é avassalador e ao mesmo tempo destrutivo enquanto potencialidades.

E mesmo para as áreas de Marketing, que em teoria deveria prezar muito a inovação, ver-se-ão em pouco tempo igualmente restritas a um dado espaço e com um determinado perfil de usuário/cliente. E o que é mais grave: com quase ou nada a oferecer de novo, já que as grandes inovações tenderão cada vez mais a ser recusadas pela massa complacente de apertadores de botões e mesmices.

De outro lado, esta mesmice a que me refiro não se encontra apenas dentro da internet, encontra-se também nos meios que usamos para a utilizarmos. É só prestar atenção: desde que foram inventados computadores e celulares temos exatamente as mesmas telas, botões, funções.
Olhe os teclados: sempre os mesmos, olhe a sua sequencia...sempre as mesmas.
Observe o que cada tecla faz, e descobrirá que são sempre as mesmas coisas.
Os computadores não deixam de ser as mesmas caixas retangulares que nossos avós viram nascer a televisão, ou retroagindo um pouco mais os rádios. Telas escuras que reproduzem sons e imagens...
É uma caixa onde entretenimento é oferecido para se passar o tempo.

Até mesmo a forma de usarmos o telefone, suas teclas e sons são exatamente as mesmas e que já vem de muito longe, provavelmente desde a máquina de escrever. Não importa se seu aparelho é um iPhone de última geração ou aquele vendido em qualquer galeria de contrabando... não há inovação! Funcionam exatamente da mesma maneira. E o pior de tudo, é que não haverá mudanças substanciais. Em verdade, tais tecnologias precisam ser pobres, medíocres para que possam ser consumidas em larga escala. Trabalhar para a inovação aqui é segundo esta ótica, contraproducente. Como inovar a tal ponto que as pessoas simplesmente deixem de consumir porque não sabem como utilizar?
Donde se deduz que temos a tecnologia não para inovar, mas para atrofiar mentes e comportamentos, nada além disso.
Simples assim...

E ainda precisamos falar das "prisões" propiciadas por plataformas, aplicativos e outros brinquedos. Mantém entretidos e dispersos boa parte destes usuários desavisados. Assim, gigantes como Facebook mantém reféns seus usuários impedindo que saiam de seus domínios, não permitindo, por exemplo, que vídeos, matérias e outros recursos sejam notados por seus algoritmos. O usuário, sem perceber, só lê, assiste e visualiza o que é produzido e gerado ali dentro. E de lá só sai quando seu aparelho é desligado por falta de carga, pois em geral, as pessoas nem desligam mais seus aparelhos.
A sensação que tenho olhando isso tudo é a de que ofereceram uma prisão numa ilha com grades de frente para o mar. Esta é imagem que tenho. O prisioneiro ali dentro acha que tem um horizonte imenso à sua volta, no entanto está ali só e aprisionado.


Como dito por Lionel Bethancourt: "a tecnologia que nos deveria dar asas, acaba por nos impor grilhões", e acrescento: com nosso consentimento e busca. 

É para se pensar...

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23 de out de 2017

Design de Informação para Portais Institucionais


Por Eliana Rezende e Lionel C. Bethancourt 

"No começo, a internet era simples. Quando a conheci, nos começos de 1993 (trabalhando para a O'Reilly Global Network Navigator) havia somente um navegador para ver as páginas web, e ele funcionava exclusivamente na plataforma Unix. Existiam somente uns doze comandos que faziam tudo ser interessante. Desenhar uma página web era uma tarefa relativamente simples.
Não ficou simples por muito tempo."
Niederst, Jennifer, "Web Design in a Nutshell", 2001.


Aceitemos como fato, que toda informação moderna, ou é criada ou será digitalizada mais cedo ou mais tarde, para o espaço mais caro e inexistente da face da terra. Toda a informação histórica contida em documentos analógicos irá mudar para digital brevemente.

Quando lidamos com informação, muitas perguntas nos ocorrem, e as dúvidas subsequentes são de várias ordens.  
Nosso mundo tecnológico, digitalizou-se de tal forma, que hoje a informação está em todo lugar, mas se não houver por parte de quem comunica uma intenção clara, tudo se perde, e ao final o resultado será apenas um grande ruído branco.

É preciso que se diga, que a informação é originada de dados, e que sem um objetivo, intenções 
 intenções bem definidas e disseminação eficiente, não resulta em praticamente nada.

Essas afirmações simples e prosaicas, nem sempre são entendidas, nem levadas a sério por aqueles que tratam a informação, ou a disponibilizam de alguma forma. 
Há algumas décadas saímos dos registros e impressos analógicos para chegarmos a um mundo de bits, links e hiperlinks. E aqui os problemas começam.

Vejamos como as camadas de informação podem ser visualizadas no mundo WWW.

As Páginas da Internet, as webpages, são documentos, escritos basicamente, em código HTML (acrônimo para HyperText Markup Language). Tais documentos contêm, na sua forma mais simples: hipertextosbarras de navegação, imagens e links. Este código é exibido pelos navegadores de internet, browsers, em monitores de computador, telas de celulares e tablets. Apenas saiba que, dependendo de como ele seja mostrado, este código pode ser definido como estático ou dinâmico.

O que vemos quando abrimos um endereço web (URL), usando o famoso: www.etcetera-etcetera.com.br, é o resultado da somatória da arquitetura e do design de informação e a informação que o autor quer transmitir.
E a forma como ele deseja que você, o usuário/a, reaja àquelas informações.
Lembre que, a arquitetura define estrutura e o design define a forma da informação que vemos. Mesmo muito antes de saber que esse endereço específico existisse. Isto pode ser chamado de comunicação visual. No caso específico das páginas de internet, este é um processo que o autor, o desenvolvedor e o designer deveriam fazer juntos.
Um processo multidisciplinar!
Conteúdo, hierarquia e forma.


Um Portal de internet é, entre outras coisas, um conjunto de webpages criadas com o propósito específico de informar sobre um tema, produto ou serviço definido, separando-o dos seus parecidos ou semelhantes. Estas informações são, na maior parte das vezes, de propriedade/autoria do "dono do domínio". Pois nada impede que existam páginas de avaliações ou opiniões, em blogs ou portais, além daquelas dos produtores ou donos da marca, serviço ou produto.




Na ER Consultoria, cada vez mais nos deparamos com os mesmos problemas ao analisar a criação e usabilidade de portais de clientes. Muitos se esquecem que, depois de lançados, os Portais precisam de cuidados constantes. Atualizações focais e atendimento aos clientes/usuários são diários ou, pelo menos, semanais. Alguém precisa se responsabilizar pelas atualizações e a intermediação com os clientes e usuários.

Veja os elementos que consegue identificar nos portais; arte, comunicação, administração, lógica, e por ai vai. Imagine fazer portais com somente um desses elementos.
Agora imagine fazer seu portal com um desses elementos faltando!
 
Independente de qual for a ferramenta utilizada para desenvolver e montar seu portal, ele deverá obedecer certos critérios para poder atingir seus objetivos.
São estes critérios que fazem a diferença.


Aqui entramos no universo o qual chamamos de design de informação
Em geral, as pessoas se esquecem que todo o conjunto de informações possui pelo menos duas partes.
Uma que é interna e que exige uma diagramação que favorecerá as conexões entre os dados, para que estes façam sentido e possam ser lidos e interpretados por um público alvo.
E outra externa, o público-alvo ao qual as informações se dirigem e que procuram de forma muito diferente dos padrões do programador.

É esta linha tênue que deixa de ser respeitada e que, apesar de transcorridas tantas décadas, encontramos sites e portais que nada nos dizem, vazios de forma e conteúdo, recheados apenas e tão somente de pequenas pirotecnias de programação e cores.

Pode ocorrer também outra situação ainda pior para o Design de Informação
Ainda que a informação exista, que haja competência técnica por parte de quem alimenta os bancos de dados, e que sejam ricos em possibilidades, o mau design simplesmente tornará tudo submerso e opaco.
A página torna-se estéril, desinteressante e muda.
São páginas que precisam de tutoriais, manuais, para poder ser utilizadas, num universo visual, econômico e restrito. Um universo onde as imagens valem mais que mil palavras, se não gostamos das imagens, não leremos nenhuma delas.

Conteúdo
Aqui é o ponto nevrálgico e a razão de ser de seu Site ou Portal. Se você não sabe exatamente o que quer, como quer, para quem e porque, deixe para outra ocasião!
Neste ponto, insistimos muito que é fundamental grandes conversas para alinhar objetivos. 
Aqui sempre fazemos o cliente entender o que de fato precisa fazer para que suas metas sejam alcançadas. 

Consideramos que é muito importante que, se seu Site ou Portal for de conteúdo, consultorias e afins, ele precisa ter solidez, consistência. Por outro lado, se você está oferecendo um produto ou serviço, não confunda seu cliente gerando voltas imensas e desnecessárias.
Tudo o que estiver no seu Site ou Portal tem que fazer sentido e dirigir-se ao seu público alvo de forma clara, sem rodeios.
A Informação precisa ser visualmente agradável, ao ponto de incentivar a navegação e consequentes descobertas quer a usuários comuns, quer a pesquisadores ou técnicos. 
O que significa dizer, que um único template usado para diferentes portais ou sites não oferecem os requisitos acima colocados. 


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Referências:


Tipos de Portais, in WGabriel, "Tipos de Portais", http://wgabriel.net/arquitetura-da-informacao-e-webwriting/tipos-de-portais-web/, acessada em 10/10/2017. 
Enciclopedia de Clasificaciones (2017). "Tipos de páginas web". Recuperado de: http://www.tiposde.org/internet/172-tipos-de-paginas-web/, acessada em 10/10/2017.
Rosenfeld, L. e Morville, P., Information Architecture for the World Wide Web, OReilly, 1998.
Nielsen, J. e Tahir, M., Homepage usability, New Riders, 2001.
Nielsen, J., Designing Web Usability, New Riders, 1999.
Niederst, J., Web Design in a Nutshell, Second Edition, O'Reilly, 2001.
Design de Informação: O que é e para quê serve?, acessado em 22/10/2017
e mais outros...

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19 de jul de 2017

Espaços de liberdade e ócio se estreitaram

Por: Eliana Rezende

Uma metáfora interessante para a vida que temos e levamos.
De repente os muros que cercam nossas cidades e vidas estão cada vez mais altos numa busca frenética por segurança.
A vigilância permitida acaba sendo um consenso para a vida contemporânea e ninguém já se incomoda com câmaras em locais públicos, entradas de residência, prédios e locais de trabalho. É o que em outro post chamei de vigilância consentida.

Explora-se na Arquitetura o chamado conceito aberto, onde espaços integrados dão ao seu usuário a sensação de estar integrado a tudo e todos. Mas ao mesmo tempo os indivíduos vivem cada vez mais o que denominei de contradições em vidas modernas.

Em verdade, os muros aqui não são de proteção e segurança. Muito ao contrário! São muros de estreitamento, cerceamento de liberdade através da exposição continuada.


Mas numa situação até paradoxal e quase que numa exata proporção, nossos espaços de liberdade,  sonho e ócio se estreitaram. Cada vez mais nossos espaços de exercitar momentos de intimidade com nossos devaneios e liberdade com pensamentos, fantasias, sonhos se restringem.
A conexão em tempo integral torna todos conectados todo o tempo. E simplesmente desligar-se de tudo parece ser pecado mortal que tem como sentença final estar fora do mercado, não ser considerado responsável e até profissional. A intensificação de exigências para mantermo-nos ocupados  tornará em pouco tempo insustentável uma vida saudável e de satisfação.

Cada vez mais as pessoas deixam ter tempo e espaço para estar consigo mesmas. Descobrir não a solidão, mas o valor da solitude (estar acompanhado de si) e o que é melhor: achar que está em boa companhia.

Até mesmo espaços onde ficávamos absolutamente a sós com nossas necessidades, como era o caso dos sanitários, são hoje espaços de sons e teclas, quando alguns mais afoitos até WhatsApp usam!
Outros vão ainda mias longe: nem mesmo quando vão ao banho conseguem se desconectar de sua coleira eletrônica.
Invasores e invadidos todo o tempo. Ou estamos de um lado ou estamos de outro....


Mas este estreitamento invasivo de espaço não acontece apenas nos chamados espaços institucionais/corporativos quando as coleiras digitais dão o tom e a direção de onde devemos ir, com quem e a que ritmo.

O estreitamento a que me refiro pode ser ainda muito mais avassalador e invasivo: atinge até mesmo os que ainda nem chegaram ao mercado de trabalho.

Perceba como nossas crianças estão cada vez mais reféns de atividades, horários, "compromissos". Em muitos casos, cumprem funções que pais e responsáveis acreditam que seja útil para a sua vida profissional futura. São aulas de inglês, espanhol, informática, e até as consideradas práticas esportivas visam "proteção", como é o caso de capoeira, karatê, lutas marciais e afins. As atividades recreativas cumprem horários que, em geral, os pais precisam para mantê-los ocupados até retornarem do trabalho. Compulsivamente, seus responsáveis os atiram de uma à outra atividade, numa roda viva que leva muitas crianças a estarem sempre estressadas, desmotivas, resmungonas.
E com razão!
Para estes casos, a pergunta que não quer calar é: e o tempo de devanear, brincar, olhar nuvens no céu e simplesmente imaginar? Não seria melhor que simplesmente fossem-lhes dado tempo para brincar, fazer de conta? Momentos daqueles que castelos se fazem com nuvens e onde a mente simplesmente passeia?

Inúmeras pesquisas dão conta de que a criança ao brincar, em verdade está exercitando suas relações, aprendendo a tecer e fortalecer laços, encontrar soluções e aumentar sua criatividade e flexibilidade, aprendendo desde cedo a lidar com negociações, frustrações e limites (seus e dos outros).

Como uma geração crescida desta forma poderá ser depois cobrada por criatividade?! Respeito aos espaços alheios?
Não é um contrassenso?

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30 de mai de 2017

Leitura em tempos de textos visuais

Por: Eliana Rezende




Fenômeno estranho o que estamos assistindo.

A invasão imagética tem sido de tal ordem e magnitude que outro dia parava e pensava sobre o que eram simples textos. Ideias justapostas em parágrafos e que, em sendo construídos, chegavam a ocupar páginas inteiras.

Hoje temos uma economia de sentidos que possibilita o uso de textos curtos mas não mais em formas de parágrafos justapostos, mas de imagens. E nesta profusão de conteúdos sintéticos com perfil de fotografia vamos encontrando de tudo: de frases de autoajuda, palavras de ordem, desafios cognitivos, tentativas de pequenas piadas e críticas sociais, até o seu posposto: incitamento ao ódio, violência, xingamentos, xenofobias, preconceitos.

Os textos - se escritos são pura e simplesmente economia silábica e há todo momento saltam dos mesmos listas, enumeração e pontos: sempre temos a sensação de que saímos de vez de um texto de Word e entramos direto numa apresentação em PPT.
Cansativo, repetitivo.


Ou seja, a sociedade passou a ser amplamente imagética e pergunto-me quase que ao mesmo tempo em que respondo que isto ocorre por demanda de velocidade e pressa. Ler passa a ser um item de luxo e a máxima "uma imagem comunica mais que mil palavras", parece ser o objetivo perseguido.
Seria isso ser bem vindos à Era da Informação?

No rol das imagens, e talvez por ser ainda mais rápido, são acrescidos sons e imagens. Os vídeos ganham popularidade na forma inversamente proporcional em que conteúdo, forma e compreensão se perdem.


A cultura visual economiza silabas e cria como forma de interação emoticons.
Para quê uma frase inteira?!
E assim seguimos, cada vez mais produzindo cifras de todas as ordens.
O século XXI nunca esteve tão próximo de uma escrita cuneiforme!
Imageológica. Icônica!


Como digo, inovação não tem sido o forte das redes sociais. Como explicar tanta proximidade com a escrita cuneiforme em tempos digitais?
O pior é que numa escrita cuneiforme existia todo um domínio e construção sígnia, o que definitivamente não ocorre aqui. Em geral, as pessoas nem sabem escrever por extenso muitos de seus emoticons.

O que salta aos olhos são que as pessoas estão perdendo a habilidade e motricidade para a escrita, estão indo para a mais simplória das  simplificações imagéticas, auxiliados cada vez mais pelas tecnologias que surgem em seus Smartphones, que tentam todo o tempo "adivinhar" e completar palavras. Atualmente basta uma sílaba ou letra para que se tente imaginar os pensamentos de quem escreve. 


E a próxima pergunta: "porque será?"

E de novo, respondo que, talvez porque ainda sejamos os mesmos seres primitivos que encontramos em formas simplificadas de comunicação a solução de tudo o que ignoramos ou não nos interessamos em saber ou fazer.

Se curtir e compartilhar é mais fácil do que construir, articular, verbalizar, porque perder este tempo?

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Chegamos ao fim da leitura?

Você ainda escreve carta?


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14 de mar de 2017

O Vendedor de Enciclopédias

Por: Eliana Rezende






Olhando pela vidraça da janela da sala, chegando como uma novidade esperada, vem o vendedor de enciclopédia. Eram eles que traziam o mundo em puzzle e informações à conta-gotas em formatos de verbete. 

Sempre bem engomados, ternos escuros, camisa de um branco reluzente. sapatos bem engraxados e as meias combinando ora com o sapato, ora com as calças, cabelos bem penteados, muitas vezes usando alguma pomada, sorriso aberto, voz macia. Ofereciam janelas para o mundo direto de nossas portas quando de dentro de suas malas faziam surgir coloridos livros, imagens, textos e toda uma parafernália de estímulo aos sentidos e à imaginação.

Sonhos, fantasias e até o mito de mascatear cultura vinham em meio à suas páginas ofertadas em diferentes composições e possibilidades. Muitas vezes folhadas ávidamente por dedos rápidos e olhares curiosos de clientes domiciliares.  

Materializavam o sentido do saber e informação de um mundo que corria analogicamente, com notas de rodapé e com pesquisas cruzadas manualmente. Artefatos construídos com rigor interno e estética que fosse agradável aos olhos. Em grandes formatos favoreciam a visibilidade de letras e imagens, as capas duras ornadas em detalhes dourados faziam a diferença em qualquer prateleira ou estante. Perfiladas lado a lado davam a dimensão da abrangência dos temas que tratavam. Tê-las, por largos tempos era sinônimo de status social e cultural. 



As enciclopédias não eram para apressados, diletantes ou preguiçosos. Eram para os que tinham o prazer da degustação por caminhos de indagação e pesquisa. Por aqueles que de fato liam e buscavam conexões e compreensões. 

Eram para os que a noite davam aos filhos a opção de escolher entre coloridos livros infantis histórias de duendes, fadas, Sacis, Emílias. 

As enciclopédias foram por largos tempos sonhos de consumo e símbolo de status de camadas eruditas da população. Tê-las significava entre outras coisas ter acesso a um conjunto de informações diversas e grandes possibilidades de gerar conhecimento.

Mas o tempo foi passando e o personagem com o terno engomado e sua mala preta cheia de livros e folhetos demonstrativos não encontra mais nossas portas.Subiu no seu fusca e nos abandonou no tempo e no espaço.
Hoje é uma rememoração distante, quase perdido nas névoas do tempo. 


O mundo wikipediano não tem mais lugar para este tipo urbano que habitou por tantas décadas nosso imaginário. No mundo de web 2.0, 3.0 o que temos são links, hiperlinks e uma enciclopédia colaborativa escrita por anônimos e reconstruída todos os dias. Suas fontes, muitas vezes duvidosas e equivocadas, são consultadas milhões de vezes em todas as línguas e dialetos possíveis e servem aos tempos que temos: de pressa, superficialidade e muitas vezes incapacidade de pesquisar, ler, compreender, construir conexões e tecer elucubrações e sínteses.

Não há aqui saudosismo piegas: há apenas a constatação da configuração de um novo tempo e de nossa relação com estes saberes constituídos e reunidos em um determinado local. 

O saber era algo hierarquizado, localizado por verbetes e armazenado para consumo linear. Hoje a leitura e a apropriação da informação segue diferentes trilhas e possibilidades, algumas bem rasas outras com algumas laminas de profundidade.

O futuro será o melhor juiz deste tempo que produz informação como nenhuma outra época da história da humanidade, mas tenho cá minhas dúvidas se a produção de conhecimento obedeça a mesma métrica e curva ascendente. Temo que a qualidade apresenta-se inversamente proporcional à quantidade.   



21 de nov de 2016

O cortiço de nossas almas

Por: Eliana Rezende


Vez por outra sinto um grande mal estar e algumas perguntas me vem a mente: afinal, quem é que precisa de um deus, um inferno, um céu, um diabo se todos nos habitam no grande cortiço de nossas almas?
Nos espreitam, acompanham, se insurgem e nos movimentam sempre e tanto!




Mas é interessante como em todas as tradições religiosas são colocados para fora e para além do indivíduo como se longe ou perto significassem domínio sobre as forças do além.

O Bem mantido próximo significaria bem aventurança e local certo e garantido num locus que alguns chamam céu, paraíso, mas que significariam perfeição e eternidade. Colocados num futuro ad eternum, o indivíduo passa uma existência barganhando e negociando favores e fazeres.
O julgamento ora feito pelos que compartilham a fé em sua imediaticidade, ou um deus onipresente e onisciente põe em xeque princípios mínimos de privacidade: nada escapa aos seus olhos. 

Do outro lado há o Mal, colocado quase sempre na fronteira entre o ser e o mundo, representa uma presença permanente em frestas de ações ou pensamentos. Oportunista se vale de um jogo de sedução e sedição, buscando na barganha com os céus corromper algum 'íntegro' desavisado.
A negociação entre o que perde e o que ganha também é jogada para fora e para frente onde ninguém sabe ao certo quem é o juiz e quem é o oponente.

No mundo maquiavélico as pessoas se esquecem de que o cortiço da alma aceita e cabe de tudo um pouco.
Não é lá fora, ou distante nos dias que tudo ocorre.
Em verdade, no cortiço de nossas almas os gritos das lutas travadas ocorrem todo o tempo e às vistas de todos. Tudo o que acontece em cada compartimento está lá: basta olhar!

A lama, o lodo e todos os odores dos recônditos do cortiço de nossa alma estão ali.

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30 de set de 2016

A vida wi-fi de seres desconectados


Estranho pensar como uma civilização inteira tão conectada, ligada, plugada em cabos, fios, redes, plataformas e todo tipo de brinquedos tecnológicos pode ao mesmo tempo, e de forma quase que automática, estar completamente desconectada da vida à sua volta. 

Um estado de distopia parece se avolumar e alcançar todos: não importa idade, gênero, posição social e até grau de instrução. A vida, em especial aquela vivida em grandes centros urbanos parece reduzir as pessoas a autômatos que respondem e movem-se num aglomerado de poluição e engrenagens mecânicas, metálicas, por entre concretos, por cima de asfaltos entre espelhos e vidraças. Dentro de veículos individuais ou públicos, indivíduos perfilam-se e seguem suas rotinas tendo nos ouvidos um fone, nas mãos um teclado, e alheios a tudo e todos seguem suas rotinas de congestionamentos físicos e mentais, feitos por veículos, vidas e até ausências.

O único congestionamento não permitido é o de pensamentos. Estes são relegados ao mais profundo esquecimento, suprimido por ruídos artificiais produzidos por sons de gadgets.

A incapacidade de convívio com o silêncio próprio parece ser a regra. E as mentes ocupam-se num não pensar anestesiante e assustador, auxiliadas voluntária ou involuntariamente por outros seres nas mesmas condições. Compõem um exército de zumbis que perambulam por ruas, transportes, sentam-se em bares, restaurantes, praças, vias e espaços públicos.

Lembro de Saramago e seu "Ensaio sobre a Cegueira". É fato, para não enxergar não é preciso que falte o sentido da visão. Basta que falte o sentido de pertencimento, de crítica, de agudeza de espírito. E neste ponto, a cegueira poderá acompanhar-nos uma existência inteira. Acostumados que estamos a não ver, nem notamos aquilo que nos passa ao largo.

Triste sina a desconexão de si e do mundo!

Neste mundo de paradoxos, a única consciência são as ausências de redes wi-fi. Percebidas, tornam-se rapidamente reivindicadas, reclamadas. São as "muletas" para manter o estado de entropia de uma massa que se deixa levar homogênea e compactamente.

Os sons que trazem consigo em seus aparelhos abafam os sons da alma.
Matam a última possibilidade daqueles bate-papos informais e camaradas. A conversa é sepultada ao som de teclas, músicas, vídeos e não há ninguém que note. Sem cerimônia, sem despedidas, sem sentimentos... totalmente perdida!

Gosto do curta metragem "Vida Curvada”, onde o uso excessivo de smartphones é satirizado através dos perigos que seus usuários passam ao não descolar os olhos desta minúscula tela brilhante. Espero que sirva à reflexão:



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