28 de jun de 2014

A arquitetura do medo e a vigilância consentida

Por: Eliana Rezende

As cidades são o seu entorno e, se arriscarmos uma arqueologia do lugar, veremos de forma muito acentuada exclusão e sua rede de excluídos.
Os espaços antes construídos para o convívio social como as praças e mesmo as ruas hoje são, em especial nas grandes metrópoles e megalópoles, onde o medo transita e a barbárie se instala.

Para alem disso, as constantes demolições, construções e reconstruções mostram uma cidade autofágica, que perde sua identidade cada vez que um novo edifício surge encima dos entulhos. Camadas e camadas de viveres e fazeres são abandonados e simplesmente substituídos, tal qual nas construções aztecas. 
Em alguns casos, tais sobreposições representam o domínio de uma forma ou modus vivendi substituir, suprimir ou subjugar outra. Novas apropriações e reconfigurações marcam um novo tempo ou função. Implosões, demolições, ocupações, dão nova configuração a antigas formas de ocupação espacial.  



A sociedade atual tem um foco voltado no eu, no indivíduo contrapondo-se ao sentido de coletivo das antigas aglomerações citadinas. As relações estão sempre ao longe e habitam um locus virtual. Acessamos pessoas que estão a milhares de milhas e há distâncias abissais entre pessoas que partilham uma mesma sala!

É interessante que recentemente incorporou-se um sentido na arquitetura que é o de integração de ambientes internos. Um exemplo são cozinhas integradas com salas de jantar, e até dormitórios. Em projetos ainda mais arrojados abandonam-se as paredes e apenas móveis são utilizados como delimitadores de ambientes. Só que esses espaços estão recolhidos sob muros que isolam e tentam "proteger". São ilhas de fantasia plantadas em condomínios e em alguns pequenos redutos. Fisicamente tais condomínios plantam-se em um locus chamado cidade, mas socialmente está fora. Uma inclusão feita pela exclusão.
Paradoxal, não?

Temos de forma ainda mais pontual e localizada o desenvolvimento do que vem sendo chamado de arquitetura do medo. Nela imperam cercas eletrificadas, muros, fossos, grades de proteção, espelhos, câmaras de vigilância. Todo um arsenal de meios que excluem pela inclusão. Justificam-se pelo desejo de segurança partilhada com pretenso pares ou iguais. Estar dentro significa ser um igual, co-partícipe do medo e da insegurança generalizada, fabricada e presumida.

A necessidade de visibilidade com ocultação insere em nossa cultura vidros, vidraças, baias de trabalho, câmaras de vigilância, etc...são formas explícitas de "policiamento" e vigilância justificadas amplamente pela insegurança real ou fabricada. Colocam-se como aparentes escudos protetores contra a ameça invisível, ou visível do "outro", do desconhecido.



Mas toda essa visibilidade passa longe do que seja sociabilidade, vivência.
As pessoas muitas vezes querem ver e ser vistas, mas se relacionar parece não ser o objetivo.
As cidades no decurso da história sempre tiveram um sentido de exercício de cidadania e em muitas o meio de viver e trocar socialmente. Espetáculos de vida e de morte aconteciam em praça pública.
Hoje temos passantes... transeuntes...

Isto para não falar do quanto a cultura do automóvel destitui de todos a mobilidade, gerando um grande paradoxo. Encapsulados, muitas vezes blindados e envidraçados fazem da rua um percurso e não um espaço de (con)vivência. A rua passa a ser apenas um espaço de ligação entre um ponto e outro. Ponto este que, em geral, é de um local fechado e guardado para outro com características semelhantes. 

As construções repetem as formas prisionais e em muitos casos fica dificil determinar se ela é um presidio, uma escola, um hospital, um templo ou um shopping. Tamanha a semelhança entre as edificações.

Reclusos em todas elas, as pessoas simplesmente se entreolham. Partilham a artificialidade de um ambiente com temperatura e luz controladas, os sons igualmente reproduzem uma escolha de terceiros com objetivos os mais variados. Escadas rolantes marcam itinerários que tornam obrigatório determinadas rotas e destinos.


Os espaços portanto são demarcados dentro de universos circunscritos e domésticos (conhecidos). O desconhecido ganha vultos de perigo e cada vez mais gera estranhamentos, distancias e isolamentos. Sem este tipo de vivência com o diferente, cada vez mais as pessoas criam suas ilhas de isolamento social e o medo acaba imperando e justificando cada uma das ações aplicadas às vivências ditas urbanas ou públicas. 
A (con)vivência entre diferentes, estanca-se e se atrofia. O circulo vicioso está feito. 
Fica então perdido o sentido de cidadania, de vivência e sociabilidades urbanas.
O que sobra de tudo é uma arquitetura de medo e individuação.   
Qual será o destino para as nossas cidades?



Os espaços cada vez mais segmentam, interceptam, selecionam e filtram os que podem por eles circular. Trazem em suas formas a exclusão, a divisão e a segregação como norma. Resultados óbvios, são ilhas de similaridades e mesmices. Mixofobia, para usar uma única palavra.
Com que resultados?

Quanto mais hegemônica e similar uma sociedade for, menor será sua capacidade de negociação, de acolhimento e de tolerância. Negociações mínimas começam a ser cada vez mais difíceis e a segregação pelo diferente uma constância. 
Cada vez mais o desconhecido assumirá ares assustadores e que, como tal, deverá ser mandado cada vez  mais para a periferia do que pode ser considerado seguro.


Referência:
BAUMAN, Zygmunt. Confiança e medo na cidade. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.

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