5 de jul de 2014

De metáforas e escrita...

Por: Eliana Rezende

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.” 
(Graciliano Ramos, em entrevista concedida em 1948)
Sim, a palavra, tal como a roupa da lavadeira precisa ser trabalhada e limpa antes de ser exposta.
É trabalho duro, de ir e vir, encontrar sua sonoridade e ritmo tal como o tecido, que ao bater contra pedras vai deixando as nódoas e sujidades que carrega.
Só aí será exposta aos olhos de todos, tal como as roupas são quaradas e alvejadas para depois serem penduradas ao tempo, recebendo a luz do sol e a brisa do vento.


Escrever é oficio, e muitas vezes representa trabalho duro de ir e vir, de repetição de tarefas, de espera. Até que fique de fato pronto para "dizer" e não apenas reluzir. Como um ourives, manipula as palavras como quem trabalha com metais e pedras preciosas. As procura, lapida e finalmente as coloca meticulosamente uma a uma como adorno ao escrito.

As palavras para mim são poderosos instrumentos e merecem ser postas e dispostas com respeito àquele que oferece parte do seu tempo para as tomar e ler.

Da minha vida errante e oscilante distribuo ideias por meio de palavras no transcurso de deslocamentos. Vida cindida entre várias cidades, gentes, modos de ser, de estar... vidas múltiplas percepções errantes. De punho, ou em um jato de tinta, contam ânimos e prismas de minhas visões de mundo. São retalhos caleidoscópicos de tantas vidas que vivi, de ideias consumidas, partilhadas e compartilhadas.

Nas palavras encontramos as metáforas que ajudam a explicar o mundo ao qual pertencemos.
Nominar é, em última instância; “trazer à existência”. São com elas que expressamos ideias, sentimentos, projetos, sonhos, expectativas, reflexões, tecemos críticas e construímos pontes entre o sensível e o visível. Com elas construímos e partilhamos o saber e o conhecimento.
Construímos mundos.

Vejo o mundo nominado pelas palavras constituído a partir de tramas que se cruzam e entrecruzam por meio de relações. Relações que são antes de tudo, troca. Troca de experiências, de sentimentos, de vida! São as relações, em toda a sua complexidade, que oferecem as tensões, os conflitos, mas também as descobertas, as quebras de paradigmas e de preconceitos. Oferecem a resistência, mas também a superação. Oferecem o desafio dos limites e a alegria da transcendência.
Proporcionam a infinita possibilidade de expansão e alargamento do ser, em sua mais pura acepção.

A escrita desta forma, vem como a sinuosidade de um rio, saber entender esse fluxo e se movimentar entre elas, dá contornos às nossas emoções e a forma como olhamos e interpretamos o mundo. É neste sentido que se transforma em comunicação.

2 comentários:

  1. Ao passar pela net encontrei seu blog, estive a ver e ler alguma postagens
    é um bom blog, daqueles que gostamos de visitar, e ficar mais um pouco.
    Tenho um blog, Peregrino E servo, se desejar fazer uma visita.
    Ficarei radiante se desejar fazer parte dos meus amigos virtuais, claro que irei retribuir seguido também o seu blog. Minhas saudações.
    http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/

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    1. Ol@ António...
      Muito grat@ por tua andança por aqui.
      Sempre encontrará pouso e descanso!
      Abs

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