7 de jun de 2015

KODAK e FACEBOOK: Aperte o botão e nós faremos o resto!

Escrito e lido por: Eliana Rezende 

(escolha a opção abrir com: 
Music Player for Google Drive)


O slogan era simples.
Você clicava o botão e a KODAK  fazia o resto.
A simplificação motora de um aparato mecânico fornecia ao usuário a experiência de autorepresentação.
Se até então fotografar-se e imprimir uma imagem de si exigia idas à estúdios fotográficos e a figura de um profissional, com o surgimento das máquinas fotográficas vários intermediários eram retirados de cena.


Ajudando as pessoas a construírem uma imagem de si mesmas, a KODAK foi construindo uma imagem de si e das formas como o mundo podia ser representado. A partir da década de 1920, a KODAK passa a lançar uma ampla campanha de publicidade nas revistas ilustradas mostrando as vantagens da sua máquina portátil, além de oferecer sugestões de situações cotidianas em que se poderia utilizar a fotografia. Veja só:
"(...) Desde a infância até a edade madura a KODAK conserva uma chronica photographica, completa e fidegna, de todos os incidentes alegres da nossa vida. Tanto a criança, como o adulto, podem operar a KODAK com a maior facilidade e obter phographias á primeira prova (...)"  - Fon-Fon! 25/02/1922.
É a partir daí que a crônica fotográfica se amplia e incorpora a um modo de viver: o registro frequente e em quantidade de fragmentos da vida cotidiana.
Além de ser um importante item em momentos de lazer, as câmaras fotográficas, de acordo com seus modelos, apontavam um determinado requinte por parte de seus possuidores e seu segmento social. Assim, o acabamento final era sempre salientado pelos reclames, procurando reforçar seu uso pelos interessados em geral. O objeto reunia com isso um símbolo de status.


A inovação tecnológica apresentou às pessoas uma fórmula simples perseguida eras após eras para se fazer perpetuar e representar. Não é objetivo deste post, mas posso citar inúmeros exemplos de civilizações que buscavam esta autorepresentação como forma de se fazer lembrar e impor. Fenícios, Egípcios, Gregos, Romanos e mais recentemente escolas Renascentistas e Modernas que formaram inúmeros artistas e pintores. Haja visto trabalhos de pintores e retratistas anteriores ao período de invenção da fotografia que tinham aí seu oficio e meio de ganho. Era comum que tais artistas fossem contratados para fazer retratos de famílias nobres em suas respectivas sociedades.

No caso dos povos da antiguidade como egípcios e mesopotâmicos, sua representação pictórica era também uma necessidade narcisista de fazer-se perpetuar,  priorizando juventude e poder através de sua imagem e representação. Não muito distante deste ideário estão também pinturas rupestres com imagens de festas, guerras e rituais. Ou seja, autorepresentação e perpetuação integra anseios dos mais profundos em diferentes épocas e civilizações.

Em verdade a KODAK ofereceu o botão e todo o resto se fazia como mágica. Ao clicá-lo todo o sentido de perpetuação integrava-se a uma imagem que logo a seguir seria consumida e reproduzida com diferentes objetivos e propósitos. 

É interessante notarmos as publicidades de incentivos ao uso das câmaras e de que forma ritos e eventos sociais, públicos ou privados, podiam ser feitos. Tal simplicidade era apresentada pela figura feminina. Afinal, "até uma mulher poderia manejar uma"!


O que ninguém imaginaria era o quanto as pessoas iriam longe nos usos e abusos desta tecnologia, e o quanto se fariam fotografar. "Selfies" (neologismo que chega junto com o desenvolvimento de tecnologias digitais e redes sociais), proliferam à nossa volta nas mais diversas situações. Algumas bastante constrangedoras como as que ocorrem em funerais e tragédias. Da auto-representação passa-se imediatamente ao narcisismo exacerbado e mórbido, onde uma imagem tenta ser síntese de todo um conjunto de sentimentos, emoções, acontecimentos. Requintes e minúcias que, em muitos casos poderíamos passar sem! Não é preciso lembrar de "selfies" em funerais, pós sexo, ou até em situações de tragédias, mortes, acidentes e outras catástrofes.

Mais de um século depois temos de novo um botão com funções semelhantes dentro de uma plataforma tecnológica.

O "curtir" no FACEBOOK encerra em si a possibilidade de registrar um rastro de perfis, gostos e desgostos a partir de uma ferramenta tecnológica. Nunca foi tão fácil apertar um botão e deixar que outros façam o resto. A sanha da exibição e de mostrar-se continua, mas com outras características.
De fundo temos o principio mais elementar: facilidades para a exibição e instantâneo compartilhamento.


Como todo produto em rede, as máquinas fotográficas foram assumidas, primeiro, pelos mais abastados e somente depois alcançaram as camadas mais populares. Não foi diferente com as redes sociais. Sua aparente gratuidade envolve uma gama imensa de necessidades de consumo prévio (é preciso um computador, provedores de acessos e equipamentos digitais para fazer os registros fotográficos). Ou seja, foi preciso que um determinado segmento da sociedade pudesse começar a consumir tal tecnologia para ela se espalhar, mas ainda está longe de poder ser considerada democrática e gratuita. Mas como um rastilho de pólvora tem acendido o desejo de milhões para o consumo rápido de imagens de si, de outros, de lugares, coisas, objetos, eventos.

Eis o que une KODAK  e FACEBOOK com um hiato de pouco mais de 100 anos. Enfim, não é apenas o K no final!

FACEBOOK tal como a KODAK introduziu na vida social a pretensa necessidade de um intermediário tecnológico para preservar momentos e compartilhar relações entre aqueles que pretensamente se ama e se quer sempre perto. O mote justificador é o mesmo: aproximar via imagem aquilo ou aquele que está distante e muitas vezes até inacessível. 

Nos dois casos temos a semelhança de irem ao encontro de um anseio de perpetuação e exibição nos espaços sociais, facilitados por botões que simplificam, dão forma e... às vezes, até sentido ao que se quer mostrar.


O botão da KODAK e o curtir do FACEBOOK, encerram em si uma ação: auto-representação e exibição para consumo social.


____________________

Posts relacionados:

KODAK: uma história de derrocada ou de longevidade?
Facebook: robotização e sedentarismo em rede
Geração Touchscreen
Contradições em vidas modernas
Escravos do celular?

*
Curta/Acompanhe o blog também através de sua página no Facebook
Visite meu site ER Consultoria | Gestão de Informação e Memória Institucional

4 comentários:

  1. Eliana, muito boa a reflexão. Incontestável a sabedoria contida nas palavras de seus artigos. A comunicação com o uso da imagem é fator que determina ao Homem moderno suas tendências de consumo, a valorização e a auto afirmação do EU...“O ser humano criou a necessidade de se expor em um grupo virtual. É possível criar fantasias nesse mundo e uma imagem daquilo que gostaríamos de ser”, diz Ana Luiza Mano, psicóloga do núcleo de pesquisa de psicologia em informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E o Instagran faltou um K, no meio da palavra...

    ResponderExcluir
  2. Oi, Eliana! Você escreve muito bem, acompanho suas postagens, embora nem sempre comente. É realmente viral essa exposição da própria imagem, cultivada por outros tantos que se ajustam à nova realidade (virtual). Não vejo nada de mais em se exibir nas redes sociais, mas isso cansa se não tiver algum objetivo que provoque no outro, por exemplo, aquele que nos vê e nos enxerga, possibilidades de ampliar a própria visão ou dar de repente outro sentido pra vida. Carência é um bom motivo para tal ato também, já que somos seres sociais e através dos outros nos afirmamos... Bjs.

    ResponderExcluir
  3. Belo artigo, Eliana. Visão original, reflexão oportuna, texto claro, gostoso, elegante. Conjunto cada vez mais raro. Claudia Atas

    ResponderExcluir
  4. Adorei o artigo. Sou gfotógrafa amadora. Ele veio complementar minhas reflexões e meu conhecimento.

    ResponderExcluir