13 de dez de 2015

Geração digital não sabe pesquisar? - Parte II

Por: Eliana Rezende

Em outro post iniciei uma reflexão sobre as dificuldades que jovens, e mesmo adultos, tem tido para realizar suas pesquisas. Em muitos casos esta dificuldade se dá pelo excesso de informação acessível, e em outros se dá pelo simples fato de que há uma preguiça e acomodamento intelectual em relação ao que se pesquisa.

Toda pesquisa é uma tentativa de encontrar uma resposta a um questionamento. Concluo que, em boa parte das vezes alguns não sabem o que perguntar. Não saber a pergunta adequada inviabiliza à partida o princípio do que quer que seja.
Por outro lado, o questionamento que leva à uma reflexão precisa ser crítico. Esta crítica que move questionamentos deve ser construtiva e problematizada.
Boas perguntas com certeza gerarão problematização e maior verticalidade no que se aborda.
É importante ter claro que, até quando se pergunta, é preciso ter profundidade. Saber ir no ponto mais fulcral.

Reforço que a qualidade das respostas depende exclusivamente de perguntas bem conduzidas e apropriadas. Sem saber o que perguntamos como poderemos enxergar que estamos diante de uma boa resposta?

Um exemplo nítido disso pode ser dado em áreas afins à pesquisa e está presente na vida de alguns profissionais, como é o caso dos bibliotecários. Não sou bibliotecária, mas sei que muitos bibliotecários se defrontam diariamente com esta situação de alguém que quer pesquisar e não imagina nem por onde começar. Não sabe quais as perguntas que precisam fazer para a construção de um argumento investigativo.

Se não está claro, para quem pesquisa, qual é o seu objeto de análise, tudo fica nebuloso e só perguntas sem consistência não servem à produção de conhecimento.
Talvez esteja aqui o grande problema.

Quando faço orientações, o principal problema que os discentes têm é encontrar o seu tema e uma problematização consistente para o desenvolvimento do mesmo. Muitos se perdem e às vezes, abrem um horizonte que não conseguirão amarrar nunca. Costumo dizer que tais alunos (e isso ocorre em diferentes níveis: Trabalhos de Conclusão de Curso, Mestrado e até Doutorado) sofrem do complexo de ser "Deus". Acham que sua pesquisa poderá abarcar tudo. Mas a experiência mostra que a modéstia é um bom argumento. Ao tentarmos tudo abarcar e conter nos fará ir em outra direção: teremos trabalhos que muitas vezes não fazem muito sentido, ou que carecem de discussões mais aprofundadas. Em outras circunstâncias ficam vagos e a profundidade não chega a uma lâmina de água.

Diante deste hiato não haverá catálogos ou ferramentas que deem conta do produto final deste aluno. É importante perceber que o aporte deve vir, não do bibliotecário ou do docente, mas do sujeito que investiga, que busca!

Note que em diferentes cursos temos alunos brilhantes e outros nem tanto, apesar de os professores, os conteúdos e bibliografia ser literalmente os mesmos. Só que é o esforço de construção de cada um que  fará a diferença entre os excelentes e os apenas medianos. A disponibilidade para cavar seus diamantes está dentro de cada um. O caminho da pesquisa pertence ao indivíduo e não é dado por ninguém.

Se tudo dependesse apenas e tão somente de fatores externos estaríamos com tudo resolvido com boas contratações e aquisições. Mas não é assim que ocorre, para o bem ou para o mal.
Após este momento tão crucial na vida de cada um que é o da realização de uma pesquisa de fim de curso ou de estudos pós-graduados temos um segundo momento, e que vemos onde cada um vai.
É o desempenho profissional e a colocação no mercado de trabalho.
Neste mundo real, feito não de boletins, pesquisas e notas, teremos os mesmos diplomas, mas com profissionais diferenciados e onde o "mercado" selecionará os com maiores habilidades de contribuir com sua profundidade e rigor para o desempenho de diferentes tarefas. E, de novo, ninguém poderá fazer a mediação. Todo o rigor e acuidade que o aluno deveria ter sido capaz de desenvolver será posto à prova e poderá mostrar-se um remédio amargo ou um sucesso estrondoso.

O que é claro é que nenhuma sociedade é homogênea, linear... mas podemos dar nosso melhor para que os fossos sejam menores, e que a produção, em especial a acadêmica, não seja rasa.
Se for rasa, contribuirá para uma sociedade calcada no patamar de mediocridade e simplificação.

Diante do exposto temos vários aspectos a considerar.
Quero crer  que as pesquisas acadêmicas tenham o sentido de cientificidade que se espera de uma obra desse porte. Também espero que tenham um sentido de aplicabilidade com resultados. Se está envolta em simples Control C + Control V duvido que passe no teste de "aprovado com bons resultados".
Não falo aqui de muitas produções que ocorrem durante a fase em que se estuda ou mesmo trabalhos de conclusão de curso. Mesmo um Mestrado é sempre considerado um primeiro exercício de reflexão, por isso é chamado apenas e tão somente de Dissertação.

As Instituições e seus respectivos pesquisadores exigem o rigor e a profundidade para poder ser considerado científicos e de contribuição à sociedade e a produção de conhecimento.

Quero alertar que a proposição desta discussão contempla vários níveis: há o problema de crianças e jovens que estudam a base de consulta em Google e Wikis e fazem leituras diagonais de alguns autores.
Há aqueles que fazem sua formação de maneira superficial onde a urgência é apenas um diploma ou certificado. Há os que leem e não conseguem estabelecer um diálogo mais profundo com o objeto de sua leitura e ainda há pesquisadores que fazem de sua vida profissional o sentido de produzir conhecimento.
Portanto, não podemos generalizar e nem colocar o problema nos meios e ferramentas tecnológicas de que hoje dispomos.

A humanidade já produziu gênios e não havia em alguns casos nem a imprensa!
E volto a discussão de sempre: Conhecimento não está em algum lugar e vamos até lá e o tomamos! É tarefa de cada um! Todos são responsáveis e produzem seu próprio conhecimento.
O que se tem em diferentes fontes são apenas e somente informações.

A mediocridade assola a humanidade desde que o mundo é mundo.
O que ocorre é que hoje não é preciso intermediários para conseguir ir fundo na sua própria mediocridade: cada um consegue ir bem fundo sozinho (claro que se quiser)!
Se não quiser, poderá se diferenciar e aprender a ter consistência, sendo arguto em suas inquirições e não aceitar qualquer resposta como a óbvia! Será um interlocutor que saberá ir muito além do gosto disso ou daquilo: porá uma problematização assentada em uma crítica fundada e fundamentada em princípios que norteiam o seu objeto. Como em toda a história da humanidade você tem escolhas! Pode querer estar na vala comum ou não.
É uma questão de opção.

É como acho que disse acima: a boa investigação necessita de boas perguntas. Se de onde parto para pesquisar for um universo plano ou raso provavelmente obterei pouca profundidade e verticalidade desejável.
Todos os agentes envolvidos nesse processo (de pais, a educadores, bibliotecários) devem ser potencializadores não no sentido de "entregar" ao pesquisador, mas em estimulá-lo por caminhos que levam a curiosidade essencial que alimenta as boas indagações e as pesquisas daí decorrentes.

Desta forma, não há responsáveis por isso ou por aquilo.
É uma simplificação culpar Governos, Políticas, Tecnologias, Escolas, Professores, Alunos.
Em verdade, não podemos generalizar e dizer que uma geração não sabe pesquisar. O que temos são pessoas em universos distintos e haverão as que conseguem fazer isso exemplarmente, tanto quanto haverá aquelas que optarão apenas e tão somente por um diploma e uma carreira medíocre.
Simples assim...

Não são as tecnologias que farão pesquisadores! Elas são apenas e somente ferramentas.
Oferecerão, aos que assim o desejar, possibilidades diversas de investigação. Mas definitivamente são elementos neutros: não melhorarão ou piorarão uma pesquisa. Isto precisa ficar claro de uma vez por todas. Preguiça e acomodação intelectual podem existir em qualquer cenário, estando presente ou não meios tecnológicos.
A tecnologia não nos faz melhor ou pior em nada.


Não creio que todos nasceram para pesquisar, estudar ou se pós-graduar.
Mas acho salutar o debate. Pois assim, ainda que o indivíduo decida para si o caminho mais curto e rápido que seja de consciência tomada, e não com aquela atitude de que "eu não sabia" ou de que "a culpa é de..."

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