15 de mai de 2014

Duvidar é pensar!

Por: Eliana Rezende

- "Tens a certeza?"

Vejam, não se trata aqui de duvidar por duvidar ou criar um celeuma de qualquer ordem: seja político, ideológico, científico ou religioso. É mesmo procurar trazer à baila a importância e o valor que o pensamento crítico propicia. E este só encontra terreno fértil ante à dúvida. É preciso questionar sempre para que as respostas venham não por mera osmose, mas a partir de um trabalho sério de crítica e reflexão.


Vejo como sendo "natural" ao humano a busca de crer antes até de entender.
A História está repleta de exemplos aonde a credulidade conduziu povos e nações inteiras a confrontar-se com suas piores partes e vaticínios. Tudo em nome de uma pretensa verdade absoluta.

A dúvida, portanto seria um caminho mais sábio que favoreceria a possibilidade de compreender não de um ponto de vista meramente crédulo, mas estruturado e embasado.
As crenças, tais como as doutrinas não têm em seu horizonte a dúvida e o questionamento. São passivamente consumidas. E talvez daí o imobilismo e a acomodação que propicia. Toma-se o dado como fato absoluto, e sem questionamentos simplesmente assume-se tal como a única via possível. 

Talvez o maior problema da credulidade sejam as "verdades interiores" que se pautam sobre nossas crenças pessoais e estas muitas vezes não possuem qualquer lógica. Daí a importância da passagem dos anos. O caminho do amadurecimento é exatamente encontrar crítica num universo que é o pessoal e com ele compreender o que está em volta. 
Caminho difícil este de amadurecer, não é?

Interessante adotarmos a dúvida e pensarmos em sua atualidade contemporânea, quando é uma prática que teve seus primórdios na filosofia de Platão, Santo Agostinho e, posteriormente a duvida metódica de Descartes.
Extremamente relevante se pensarmos que estamos no século XXI e que o humano continua sendo humano. Que as questões que inquietam e fazem crescer são as mesmas e que as formas de buscá-las estão sempre à nossa volta.


Como disse Nietzsche: “o conhecimento não é o termo de uma caminhada, mas o princípio de um questionamento”. Tal como era concebida, a filosofia buscava preencher os espaços vazios do conhecimento. Em última instância o conhecimento assenta-se na dúvida.

Todas as ações que praticamos e movimentos que fazemos necessitam ter um sentido.
A crítica pela crítica torna-se vazia se não soubermos o quê perguntamos e nem para o quê. Se assim o fizermos, seremos apenas amargos expectadores e incompreensíveis interlocutores.

A dúvida posta neste sentido específico é a dúvida que busca a compreensão e o entendimento. É a dúvida feita como crítica assertiva, atenta e perspicaz. Visa antes de tudo o crescimento pessoal e de todos os que são impactados pelo que questionamos. Quando fazemos isto galgamos vários degraus e melhoramos muito nossa perspectiva e, quem sabe, até as alheias!

Sócrates resumia a extensão do seu conhecimento com a célebre frase "Só sei que nada sei". Assim, por maior que seja o nosso "saber", teremos sempre infinitas possibilidades de aprendizado ao nosso redor. Daí a importância da dialética, de questionar com lógica e método, de interagir de forma consciente, para efetivamente construir Conhecimento. Vale para o ser humano, vale para as empresas, bem como para o inter-relacionamento destes dois no universo social.

Vejam, aqui fala uma humanista e que considera que por em pauta a dúvida é também não achar-se possuidor de verdades. Quando temos a humildade de reconhecer que nada sabemos e que nossas verdades podem não bastar ao mundo e aos outros, acho que ganhamos muito.
Duvidar antes de tudo é um caminho curto de buscar alternativas criativas e inovadoras para velhas questões, tanto nossas quanto de outros. Por isto tão válida!

Duvidar é também um modo criativo de descobrir que há sempre muitas respostas e que talvez a nossa nem seja a melhor, a primeira e muito menos a última.

O questionamento é sempre um bom começo para o desenvolvimento de um espírito crítico, inquieto e que busca ir além da acomodação ao que é dado.
Vejo este movimento como proativo e capaz de auxiliar na trilha de novos caminhos e outras possibilidades.


Manter este espírito significa, entre outras coisas, também duvidar de que se possua as "verdades e todas as respostas". Talvez aí esteja a maior de todas as lições: descobrir que pouco ou nada sabemos! E que todo o tempo temos que nos dar chances para descobrir, aprender e questionar o já sabido, aprendido ou visto.

A dúvida é de fato o grande elemento impulsionador, e o questionamento até de si próprio e nossas crenças, dá-nos o sentido de nossa finitude e do quanto ainda temos que avançar. É aí que se encontra o qualitativo de todo o processo. 

Em alguns casos, as pessoas consideram que "ser do contra" é ser este espírito crítico, quando na realidade essa atitude irrefletida é vazia de posicionamento crítico.
Em geral, fica na superfície e na obviedade do dado. O espírito crítico, ao contrário, busca compreender seu interlocutor e com ele avançar um pouco além, dando consistência ao proposto e pensado.

Tarefa dura essa interlocução, pois muitas vezes não são pares e sim pessoas que estão em lados opostos e díspares de um mesmo ponto de origem.
Mas aí, creio que vem o senso crítico e que não deixa de ser o bom senso: tirar até do diferente algo que lhe acrescente e ser capaz também de acrescentar.

Pensar criticamente também é compartilhar...é preciso buscar eco às suas vozes interiores e isso só vem na ágora da existência



Por fim a pergunta, como historiadora, que deixo a todos é: como a dúvida pode ser ferramenta de gestão no século XXI?

Portanto, vamos fazer o mundo girar?


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6 comentários:

  1. Eu sempre me inquietei com o ditado popular"Na dúvida não ultrapasse".Por isto um ponto de interrogação é a primícia para a certeza chegar,Mas a dúvida é uma roda viva,só sente quem vive!

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    1. Ol@ Hilda...
      Aqui o objetivo foi mostrar que a dúvida é a forma de tentarmos usar nossa racionalidade na busca de respostas.
      Duvidar é mio de proteção tanto quanto o medo é. O problema começa quando ele nos imobiliza!
      Abs

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  2. A dúvida nos aponta a existência de outras possibilidades, que não apenas aquela que julgamos a certa. Fato que nos tira do foco de nós mesmos, amplia nossa visão de mundo e nos recicla/atualiza com relação ao que acontece à nossa volta.

    Reconhecer que estamos em constante evolução, é evoluir e crescer, sabendo que devemos estar abertos às mudanças, inevitáveis para esse crescimento.

    Em minha opinião, a gestão do séc XXI, onde tudo é questionado e muda a cada fração de segundo, é o movimento constante de desconstrução e construção, alternados.

    Um movimento empático, dolorido quando não entendido, mas necessário e saudável quando entendido, praticado e incorporado ao cotidiano de cada um em todas as áreas da vida.

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    1. Ol@...
      Exatamente.
      A dúvida pode ser também uma ferramenta tanto de autoconhecimento como de superação.
      Duvidar em hipótese alguma é sinal de fraqueza. É antes de tudo um um esforço de compreensão e de encontrar meios para solucionar eventuais dificuldades.
      Abs e muito grata pela interlocução!

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  3. Dúvidas como molas impulsoras de novas ideias e pensamentos?
    É uma forma de ver as coisas, sim. A mim parece que a dúvida desacelera, e começa a planejar antes de avançar, o fluxo dos pensamentos dedicados a um objeto ou coisa. É, dependendo do tempo e objeto em mãos, algo muito bom. Da dúvida podemos fortalecer ou modificar nossas "verdades ou crenças". Mas, devemos sempre levar em consideração que a dúvida não é nem certa nem errada. Ela não assegura o resultado do seu existir.
    Abs

    LionelC
    1521

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    1. Ol@ Lionel....
      Exatamente!
      Não há certo ou errado! Há um caminho, uma trilha a seguir. Os questionamentos ajudam a trazer racionalidade para algo que poderia, sem ele, ser caótica e catastrófico.
      Abs, sem dúvida!

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