4 de nov de 2014

Espólios e escombros de uma campanha

Por: Eliana Rezende

Talvez me coloque entre a miríade de pessoas que escreveram sobre o pleito de 2014. Mas é impossível para eu que sou ma observadora contumaz da sociedade e seus espaços de usos & abusos limitar-me ao silêncio ante tantas coisas.

Em outras oportunidades expus minha indignação quer contra o que chamo de desinformação como tática midiática, quer o voto paulista (de difícil compreensão para mim, mesmo sendo uma nativa, e por isso o chamei de desagravo paulistano) ou a forma que as redes e a mídia partidarizada ofereceram espetáculos à parte, patrocinando e dando visibilidade a ondas xenofóbicas, preconceituosas, de rancor e ódio entre supostos iguais. Além é claro, de pensamentos unilaterais e monotômicos.


Mas neste momento creio que seja importante posicionar-me ante o que considero a coisa mais importante, e o bem pelo qual todos temos que zelar que é a nossa Democracia.

Não podemos nos eximir da responsabilidade ante ondas de xenofobia, preconceito, xingamentos e ódio partidário. Democracia, tolerância e respeito devem vir antes de tudo.

Para além de tudo, não me ocuparei de ficar falando do suposto vencedor do pleito. Já há muito material produzido, pró e contra. Me aterei a outros aspectos. Explico: 

Alguns diante do quadro pós-eleitoral, dizem que o país precisa é de alternância de Poder. Por minha ótica, creio que mais do que alternância de Poder temos que ter Oposição eficiente. Nossa Oposição fez-se mais débil do que o próprio Governo! Em geral, se pegam em pequenas rusgas e briguinhas a toa, de preferência advogando em causas muito próprias. E Política quando é feita de forma pequena encontra como resultado também resultados pequenos.

Para além de tudo temos que entender o que é um jogo democrático: ninguém perde uma eleição! Todos ganham! O vencedor é Situação e o vencido é Oposição. É desse jogo, que deve ser bem jogado, que a Democracia frutificará. Um partido de Situação só fica anos a fio no Poder se sua Oposição fez um péssimo trabalho!

Assim, se todos exercerem bem seus papéis todos ganham! O que não é admissível é desmerecer o voto democrático. O jogo democrático precisa ser jogado respeitando-se as regras. E perder não é vergonha! É responsabilidade! Tem-se a responsabilidade de fazer melhor que a Situação. E aí a Democracia se faz para o bem, não de indivíduos, mas de toda uma Nação. Independente de território, cor de pele, gênero, religião ou opção sexual.

O que digo é que tudo tem dois lados e que Democracia precisa e deve ser feita de Situação e Oposição. Sem isso claro tudo é apenas fumaça para turvar sentidos. O papel da Oposição é exatamente fazer com que Situação faça o que seja seu dever igualmente democrático. Eles têm o dever de vigiar e propor. Críticas sem proposições não servem a ninguém e indicam apenas o caminho mais fácil. Sem proposições há apenas esvaziamento do sentido de crítica.

Precisam entender que que não podem ficar encastelados na Câmara ou no Senado. Precisam ir à sociedade. Sem esse laço perdem lastro e comunicação e mais uma vez serão esquecidos e menosprezados pelos que são seus eleitores. É preciso se reinventar como Oposição. Terão que construir tais pontes ou perder legitimação. Se a Oposição fizer o papel de ir contra a Democracia estará indo na contramão do que seja sua função. E o que é o mais importante: Oposição não é campanha e nem palanque.

Ao cidadão comum cabe politizar-se: ler na linha e na entrelinha tudo o que ocorre a sua volta. Não servir como massa de manobra.
É só isso! Precisam ir atrás de quem depositaram seus votos, em todas as instâncias de Poder.

Acho que todos queremos uma Democracia madura. O que talvez esteja inviabilizando seja as pessoas agirem como torcidas de futebol. Não apenas agindo como falando de uma arquibancada ( o que inclui xingamentos, desrespeitos e impropérios). Proposições políticas precisam ir além de passionalidades: precisamos olhar de lado a lado. Em verdade, escolher um candidato deve ser por um Projeto. Esse candidato pode ter lá seus defeitos e é legitimo que consigamos vê-los! O outro não precisa ser um inimigo a ser "morto". Será apenas preterido em favor de outro através de nosso voto.
Isso é o que as pessoas estão esquecendo.

Ao mesmo tempo, quando um candidato for eleito, seu oponente será imediatamente eleito Oposição. Em verdade, são dois cargos em disputa. Situação e Oposição. Governos pífios apenas existem porquê tiveram uma Oposição ainda pior! Por isso minha afirmação. Se este partido (tão criticado por setores da sociedade) está há 12 anos no poder é porquê faltou à Oposição consistência, projetos, fibra, proposições, alternativas ao dado.

Um outro grande mito que vejo que está sendo construído, é de que o PSDB, como partido, saiu fortalecido desta eleição. Não creio que seja bem assim.
Explico: tiveram sim uma expressiva votação neste pleito, mas não por serem um partido coeso e em torno de um Projeto Político para o Brasil. A única bandeira empunhada e aceita por seus eleitores foi a de representar uma legenda anti-PT. Isso muda tudo de lugar, já que um percentual muito alto destes votos iriam para qualquer um que representasse oposição ao PT. Portanto, vejo que o PSDB tem um trabalho muito grande pela frente, em especial se sonha com uma disputa em 2018. Ao se analisar os que de fato são exclusivamente de Aécio veremos que os números do pleito murcharão.
Ou será que é preciso lembrar os índices obtidos por Marina Silva no primeiro turno deste pleito? Chegava a 52%. Numa demonstração clara de que o voto era anti-PT e não pró Aécio ou PSDB.

Não podemos esquecer, como nos faz lembrar Jânio de Freitas:
"(...) Os ausentes na votação foram 30,13 milhões. Os que anularam o voto, 5,21 milhões. Somados também os que deixaram o voto em branco, totalizam-se 37,27 milhões de eleitores. Ou 27,44% do eleitorado. (....)"
Não há portanto, um país dividido: há sim um pais multifacetado. E mesmo a expressiva votação de um e de outro ainda não é o BRASIL. Ambos tem muito pelo que lutar e provar a que vieram!

Ainda é bom lembrar, para efeito de representatividade democrática que Dilma não teve menos de 40% dos votos em nenhuma das 5 regiões do Brasil. É claro que o voto majoritário foi no Nordeste chegando a expressivos 72% na região contra os 41% dos votos válidos no Sul do Brasil.

Um outro equívoco recorrente: O PSDB perdeu por causa das derrotas em Minas Gerais. É verdade que foram 3 grandes derrotas: duas foram de Aécio, pois não superou a candidata Dilma e a 3ª foi por não ter conseguido eleger seu candidato a governador.

Mesmo se ganhasse em seu Estado natal, Aécio Neves (PSDB) ainda teria dificuldade em se eleger. Dilma Rousseff (PT) teve 52,4% no Estado e o adversário, 47,6%. Se o tucano tivesse invertido esse resultado e ganhado os 550.601 votos que a rival ganhou a mais em Minas, ainda faltariam 2,3 milhões de eleitores no resto do Brasil. Na votação total de Aécio, Minas representa 11%, menos que a soma de Santa Catarina e Bahia. Para mais análises e infográficos confiram o link:
 

Dos erros comuns creio que o maior deles foi tanto Dilma quanto Aécio ficarem arrastando seus cadáveres (Lula e FHC). Ambos figuraram num outro cenário político, social e econômico dentro e fora do Brasil. Perdeu-se tempo demais com o passado, sendo que é o presente e o futuro que temos que discutir e trabalhar.
Igualmente dos dois lados, precisam encontrar formas de dialogar com os setores do eleitorado. Aécio com as camadas mais populares, Dilma com os empresários e áreas financeiras.

Em verdade, o que sinto nos dias de hoje é que temos um partido consolidado que é o PT (com forte militância e ideologia) e os outros. Qualquer um que queira ser opção a esta legenda terá que buscar ser Oposição no sentido pleno e de direito. Do contrário representará ideias sectárias presentes em qualquer partido nanico sem representação.  Ou poderá fazer ainda pior: servir de guarda-chuva que aceite e abrigue qualquer um que deteste o PT, e aí teremos o mais sórdido dos movimentos de direita, conservadores e retrógrados que desde a ditadura ficaram alijados da sociedade democrática.

E mesmo seu principal postulante, o Senador Aécio Neves, terá que ter maior presença no Senado do que teve até aqui. Em 2013 e já com 4 anos de mandato ficou com o pífio 30º lugar entre os demais Senadores da casa, com nota de 3,8. O ranking dos parlamentares é feito anualmente pela revista VEJA, desde 2011, com a colaboração do Núcleo de Estudos sobre o Congresso (Necon), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj). Confira ranking: 

O seu desempenho foi resumido, de acordo com matéria veiculada na Folha de São Paulo como:
“(...) Aécio apresentou 20 projetos — nenhum deles aprovado de forma definitiva — e relatou apenas 10 dos 45 projetos que foram enviados ao seu gabinete. Os demais, devolveu, não se posicionou ou foram retirados de pauta (...)
“Dos 20 projetos que apresentou, 13 ou representavam mais gastos ou menos receita para o governo federal.”
A campanha do PSDB, segundo Renato Pereira, ex-marqueteiro de Aécio cometeu o erro de "pregar para convertidos". Esqueceu-se de que tinham que olhar para os que não votariam nele e conquistar seu voto. Falharam em algo muito primário. Optar por ficar numa zona de conforto, levou-os a não dialogar com setores que não estavam alinhados ao PSDB.

Ou seja, a legitimação numérica de votos em urna precisa ser revertida para um bom desempenho como Oposição. Do contrário, poderá sofrer o mesmo que Marina Silva. Dona de um recall interessante, perdeu-se em meio à opções e divagações de posicionamentos e ideias.

Diante de tantos equívocos, feitos no passado corre-se nos dias pós pleito o perigo de cometer o "pecado da vaidade".

Nas palavras de Renato Janine Ribeiro:
"O partido não pode partir da convicção de que seus 48% estão mais garantidos do que os 51% de Dilma. A "hybris", como chamavam os gregos ao orgulho desmedido, acarreta a desgraça. O PSDB e seus eleitores cometem demais o pecado da vaidade. Eles sinceramente se creem injustiçados, quando perdem uma eleição deste porte.
Como o eleitor não viu que nós somos os melhores? perguntam-se.
Nenhum líder tucano pensa em golpe, mas quando malucos apelam às Forças Armadas ou querem o impeachment já, partem da crença de que não só há candidatos que valem mais, mas também eleitores - e votos - que valem mais. E portanto outros eleitores valem menos.
Líderes têm que saber conter seus extremistas
Soma-se outro problema: a dificuldade dos tucanos de perceberem o mundo em que hoje vivemos.
 O que é errado, pois toma um pequeno número por todos. Mas repito o que já afirmei: se Aécio tivesse condenado os que gritaram VTNC para Dilma na abertura da Copa - em vez de dizer que expressavam o repúdio da sociedade ao PT - esses grosseiros continuariam votando nele, mas ficariam calados. A voz mais frequente do PSDB seria moderada, educada, enfim, o que esse partido deveria ser. Mas os líderes parecem ter medo de fazer isso.
Parece que temem perder votos, esquecendo que a franja extremista de seus eleitores e blogueiros não teria alternativa viável ao tucanato. Não basta o partido se atualizar na questão dos costumes e entender melhor os pobres: é preciso que seus líderes efetivamente liderem no plano dos valores.".
Escrevo e até o presente momento nenhuma liderança do PSDB se posicionou em relação a tais manifestações que nada tem que ver com democracia. Liderança é também nestes momentos. Não se pode capitular!


É provável que ainda tenhamos que contabilizar ainda mais espólios e escombros deste pleito, mas sem dúvida não somos mais os mesmos e esperemos que a Democracia vá encontrando maturidade e equilíbrio. É da arte de coexistência entre diferentes que a sociedade vive e a Política sobrevive!

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