14 de fev de 2014

Criatividade e escola: caminhos incompatíveis?!

Por: Eliana Rezende

É interessante pensar que criatividade e escola pareçam estar em lados opostos, em caminhos que não se conectam.

Enquanto nas escolas há um programa, horários, um modo às vezes rígido de avaliações, notas e desempenhos, currículos, a criatividade deve ser livre, libertária, sem regras rígidas onde o criador é muito mais movido por seu espírito inquieto, inquiridor, curioso e absolutamente livre. Sem horários, deveres e obrigações os resultados são realizações para gerar satisfação, superação.


Na Escola espera-se que o professor seja o guia, aquele que orienta. Na criatividade é o universo invisível da mente e do espírito criativo que encaminham as grandes criações. Em geral as escolas pensam como em uma linha de produção em série, enquanto na criatividade ser ímpar e único seja uma condição de maiores possibilidades de genialidades.

Haja visto até a disposição das salas e de carteiras! Ou até os uniformes. Um mundo de hierarquias e uniformização... tornar homogêneo acaba sempre sendo a meta. Individualidades tanto abaixo como acima da média são desconsideradas em nome de padrões.
E cá entre nós sabemos que o mundo não é homogêneo, tanto quanto as ideias e as pessoas. Começar daí é uma grande falácia.

É de flexibilidades mentais e exercício livre da mente que a criatividade precisa. E a escola, como entra nessa estória?
Qual é a mediação possível?

É difícil pensar e falar a respeito das individualidades quando tudo a nossa volta parece ser pensado como um produto de massa. Isso vale para a educação, comunicação, entretenimento e várias outras formas ditas de cultura e lazer.


 Vejo que a grande "restrição" não está nos aspectos intrínsecos, mas tem a ver absolutamente com o confronto com o outro, e a forma como o respeito à individualidade e criatividade alheia, esbarra em nossas próprias concepções e visões de mundo. Confrontar-se com esse outro exige flexibilidade, adaptabilidade e principalmente modéstia: já que do outro lado haverá muito provavelmente muito questionamento e aprendizado. O pedestal que o ensino colocou por séculos, de um lado a quem ensina e de outro quem aprende, talvez seja o maior limite a ser vencido.


De outro lado, e isso para alguns é um elemento que causa temor é a necessidade de estar livre de amarras para aceitar, somar e compartilhar o que de novo vir e em todas as direções possíveis. Isso significa um estofo de maturidade cultural, intelectual e até emocional por parte do docente e que em muitos casos é o que falta. Perceber o tempo do outro e ir ao seu encontro para ampliar o horizonte de todos é o grande desafio. Quantos estão dispostos e preparados para isso? Afinal, nada estará pronto para ser embalado e disseminado. Todos os dias ter-se-á que criar condições para que o novo frutifique.

Como forma de enriquecer ainda mais esta discussão e mostrar como medidas simples podem encurtar este caminho entre criatividade e escola, te convido a assistir a entrevista de Luli Radfahrer, professor-doutor em Comunicação Digital da ECA/USP, sobre o novo papel da escola e os caminhos que podem ser adotados para atualizar o sistema de ensino à nova realidade




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11 comentários:

  1. Olá, Eliana, concordo plenamente com você. Ministro cursos para professores, nos quais trabalho muito com a sucata como matéria prima, e sempre falo a mesma coisa para eles. É necessário dar liberdade ao aluno respeitando sua individualidade, sua criatividade, valorizando seu trabalho, sem impor regras e muito menos fornecendo-lhe modelos estereotipados numa forma rígida e impessoal.

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    1. Ol@ Eunice...
      A pergunta que sempre me faço é: "será mesmo que tanta incompatibilidade seja necessária?"
      Qdo a escola trilhará o caminho de deixar que o novo frutifique dia a dia?
      Há tantas possibilidades e caminhos! Creio que o que se precisa mesmo é parara de ter medo do novo. Tua atuação mostra isso!
      Abs e continue a aparecer e nos enriquecer!

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  2. Excelente texto para reflexão da escola, pois essa situação descrita neste artigo faz parte de minha realidade como Diretor de Escola Pública de Ensino Fundamental II e Ensino Médio. Todos os dias faço perguntas sobre o que estou fazendo dentro de um prédio com diversas salas de aula e que se aproxima mais com uma prisão do que com um lugar de aprendizagem. Passo 90% do dia tentando evitar tragédias entre alunos, professores e funcionários que buscam junto aos estudantes tarefas como:horários, programas, currículos, avaliações, disciplina etc.. Mas o caminho é mesmo a reflexão. http://gestaodosucesso.blogspot.com.br/

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    1. Olá Joaquim...
      Obrigada!
      Eu tbm tenho sérias dificuldades em me adequar e enquadrar.
      Lembro qdo dava aula de que a coisa mais usual era eu nunca estar em sala de aula. Era capaz de dar aula até embaixo de uma árvore que tinha perto da quadra para sair da situação de enquadramento espacial e até intelectual.
      Procurava sempre me desafiar em buscar aquilo que não sabia, para sentir-me estimulada e de outro lado contagiar os outros.
      Mas isso é duro de fazer e essa motivação em verdade precisa vir de dentro para fora. Já que por fora sempre temos o contrário: desmotivação, baixos salários e afins...
      Abs e sigamos buscando nos reinventar!

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  3. Muito importante esta abordagem, a escola está cada vez mais distante de seus alunos por não conseguir despertar sua atenção. Muitas vezes o que se caracteriza como "problema de aprendizagem" nas crianças é simplesmente uma contestação delas ao modelo de ensino imposto. Fantástico o vídeo! Abs.,

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    1. Olá Sandra...
      Concordo contigo tbm.
      Mas vejo que em muitos casos um dos maiores obstáculos de um professor é ele próprio. É difícil remar contra uma maré de tantas dificuldades para desempenhar suas atividades e para "justificar-se" é usual colocar no outro os tais problemas....
      Nossos alunos hj não são os de tempos passados e inssitir nesse modelo passado e enfadonho frustará a todos.
      É a reinvenção ou a extinção!
      Abs e muito grata por tua interlocução

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  4. Aunque no podido seguir el vídeo por razón del idioma (otra vez, lo siento), sí entiendo el texto y el tema que plantea es muy interesante. Aquí en España, y me imagino que en gran parte de Europa, se ve esta problematica situación entre la potenciación de la creatividad y la escuela. La base del problema para mi, y para muchos profesores, pedagogos y sociólogos, radica en la naturaleza de los programas educatvos o curriculos. Estos programas educativos desde la primera enseñanza se centran en un sólo objetivo: el que lleve al alumno a ser un buen productor en el futuro; es decir que tenga las habilidades básicas para ser un operario; luego su capacidad y su entorno favorecerán que pueda o no llegar a la universidad, es decir que pueda acceder a un mejor puesto de trabajo. Esa finalidad de servir al sistema productivo elimina toda posibilidad de introducir aspectos que generalmente no se asociación con la efectividad económica; tal concepción ha llegado, ahora, a desplazar más a un segundo plano todas las materias humanísticas, consideradas como no productivas.
    Hoy la nueva visión de la gestión económica ha descubierto que la creatividad es un una capacidad que puede llevar a la obtención de no sólo de mejores sino incluso de nuevos productos. Esto supone que tenga una rentabilidad, entonces se ha pasado a ver la creatividad como algo que potenciar; primero en las escuelas de negocio y marketing. Y de aquí se empieza a pensar a introducir esta habilidad o competencia dentro del marco escolar. Aunque no soy ningún especialista, parece que los pedagogos reconocen en las matemáticas una potencialidad creativa significa, pero a lo mejor la cuestión está en salir del tipo de matemáticas de método mecánico o en base a modelos formularios y ir por contra hacia unas matemáticas donde el razonamiento lógico del alumno sea el sistema de referencia, ya luego se verá si su razonamiento responde bien o no al problema, lo importante es buscar una manera de resolver el problema. Esto sería un modelo más o menos fácil de incluir en la actual configuración del currículo.
    Pero, para potenciar la creatividad sería conveniente recuperar la tradición de potenciar la redacción y con ella la de crear historias; la de incorporar las TIC en plástica y posibilidar que los alumnos creen videoclips, u otras expresiones audivisuales; igualmente se trata de inculcar en valor de la creación artística, apoyando más el dibujo artístico o el recuperar la creación poética desde el estudio de la literatura y desarrollar una enseñanza musical, que no se corresponda tanto a una historia dela música, cuanto a un disfrute de la música. Es decir recuperar lo que ahora se ve retroceder por esa manía productivista. Pero todas esas enseñanzas que he señalado se deben de hacer desde la exigencia en la dedicación, pero desde la libertad casi total del alumno por explotar estas técnicas.

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    1. Olá Jaume...
      Não se lamente pela língua!
      Venha aprender português!!!! rs,rs, rs,rs,rs, rs....
      Mas apesar de tudo seu comentário foi excelente. Entendeu perfeitamente vários aspectos.
      Veja, em geral as escolas prendem-se à conteúdos prontos e acabados e o que de melhor um professor pode fazer é estimular a criatividade. Criatividade não se ensina, antes, cultiva-se, incentiva-se!
      A criatividade precisa de solo fértil para se expandir, fazer conexões... ser coo disse: livre!
      E isso acaba sendo o grande temor da maioria dos que ensinam. Temem que tudo lhes fuja "ao controle". Aí está todo o mal e a razão pela qual as escolas tem sido muito eficientes na tarefa de acabar com os territórios livres da criação, imaginação, inventividade. Rapidamente as escolas convertem-se em centros de doutrinação: não há margem para fazer outras escolhas... ir para outros horizontes.
      Tanto ainda por dizer...por fazer...
      Seguimos tentando!
      Abs e muito obrigada pelo teu acréscimo ao meu post. Muito bom mesmo!

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  5. Pois é... concordo que a escola deveria incentivar a criatividade muito mais do que incentiva hoje.
    Creio que seria muito bom ter aulas participativas e construtivistas, no entanto, existem alguns pontos que também devem ser levados em consideração:
    Em um sistema onde não se pode reprovar ninguém, onde os professores são ameaçados em sala de aula pelos alunos e quando chamam os pais à escola para informá-los de que seus filhos estão fazendo algo errado, ao invés de os pais repreenderem seus filhos, estes fazem é ameaçar novamente os professores, isto quando não os agridem.
    Em um país onde todos precisam levar alguma vantagem para não serem chamados de babaca e muitos só querem saber dos seus direitos sem se importar com os deveres, fica muito difícil pensar em uma escola que promova a criatividade.
    Os alunos chegam à sala de aula unicamente interessados nos 75% de presença obrigatórios, até porque, pouquíssimos professores conseguem responder à pergunta mais básica de todas de um aluno:
    - Pra que eu tenho que aprender isso? Isso vai me servir pra que?
    Unido ainda a estes problemas temos o aparente descaso do governo com a educação que se gaba do enorme índice de analfabetismo funcional do país.
    Bom, com tudo isso e mais uma série de problemas que insistem em existir desde quando eu ainda estava na escola, ainda termos pessoas sendo formadas (de verdade, não recebendo diplomas) é uma prova de heroísmo e bravura, tanto dos alunos, quanto dos educadores, quanto de seus pais.

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  6. ELIANA,
    Boa Tarde !
    A Escola, de um modo geral, não apenas está na contramão, ela " mata a criatividade".Ela pede para seguir modelos prontos quando solicita
    para analisar, pintar, escrever, desenhar.
    Há um texto que chama-se " O menininho" ( é esse o nome pelo qual o conheço).
    Conta a história de um menininho que tinha muita criatividade.A primeira escola que frequentou
    bloqueou sua possibilidade de criar, pois precisava seguir modelos impostos pela professora..
    Ao mudar de escola, a nova professora pediu que desenhassem uma flor e ele esperou as orientações, estava já acostumado a seguir modelos. Ao ver que ele não desenhava, a professora disse que cada um faria a sua flor E ele desenhou a flor vermelha com o
    cabo verde ( modelo exigido na outra escola.).
    São esses fatos que matam a criatividade do aluno.
    A criatividade exige muita imaginação, conhecimento, liberdade e autonomia para criar e
    inovar.Porque não basta só ter uma ideia diferente,genial, precisamos colocá-la em prática com a inovação.
    Abraço,
    Graziella.

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  7. Olá, Eliana. Não tenho colaborado com o grupo, mas tentarei fazê-lo a partir de agora. Sou uma jornalista "no desvio". Acabo de concluir uma pós-graduação em psicopedagogia e meu trabalho de conclusão de curso teve como tema O desenvolvimento ou o bloqueio da criatividade no ensino fundamental 2. Foi um trabalho simples, quase óbvio, dadas as limitações de tempo da época. Mas o tema tem me fascinado cada vez mais.
    Você conhece o Conane? É um congresso sobre alternativas para educação, ou melhor, sobre educação alternativa. O mais recente aconteceu em São Paulo, dias 5, 6 e 7 de setembro. Infelizmente não pude participar, mas quem esteve lá gostou muito.
    Vamos engrossar esse coro...

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