20 de abr de 2014

Chegamos ao fim da leitura?

Por: Eliana Rezende

De novo sobre leitores e leituras. Instigando todos a pensar um pouco...


Em "Utopia de um homem que está cansado", Borges descreve o encontro do narrador com
um homem de quatro séculos, que vive no futuro – ‘um homem vestido de cinza’, cor que envolve os mensageiros da estranheza em vários contos do escritor argentino – e que faz assustadoras revelações. Uma delas é a extinção da imprensa, “um dos piores males do homem, já que tendia multiplicar até a vertigem textos desnecessários”. (BORGES, 2001, p. 84)
À revelação do desaparecimento da imprensa no mundo do futuro, o narrador responde com um longo discurso:
“Em meu curioso ontem (...) prevalecia a superstição que entre cada tarde e cada manhã acontecem fatos que é uma vergonha ignorar. O planeta estava povoado de espectros coletivos, o Canadá, o Brasil, o Congo Suíço e o Mercado Comum. Quase ninguém sabia a história anterior desses entes platônicos, mas sim os mais ínfimos pormenores do último congresso de pedagogos, a iminente ruptura de relações e as mensagens que os presidentes mandavam, elaboradas pelo secretário do secretário com a prudente imprecisão de que era própria do gênero.
Tudo se lia para o esquecimento, porque em poucas horas o apagariam outras trivialidades. (...)
As imagens e a letra impressa eram mais reais do que as coisas. Só o publicado era verdadeiro”
. (BORGES,1995, p. 85)
A verdade é que neste tempo distante e assustador extinguiram-se não apenas os jornais, mas também os museus e as bibliotecas. Inexistem monumentos, feriados ou espaços de rememoração; inexistem cidades.

Tal como ocorre aqui no texto de Borges, a leitura parece ser feita sob muitas circunstâncias, para o esquecimento.
Gostaria de levá-los a repensar a literatura e suas relações com seus leitores e o contexto de produção de suas obras.

Isso porque a leitura sempre vai além do texto. É preciso tomar em conta o leitor, o escritor, o texto. a época em que o texto é produzido bem como o tempo em que o mesmo é lido. Cada texto assim pode ser sempre recriado, reinventado a cada vez que é reinterpretado e/ou assimilado. Mas vejo que cada vez mais essa forma de ler parece ser algo bem além do que nossa civilização seja capaz de fazer. Distraídos, dispersos e na maioria das vezes ávidos apenas pelo novo que chega, deixa essa possibilidade de leitura para trás.

Para este caso, a leitura talvez esteja encontrando o seu final. O déficit de atenção e a indisposição pela verticalização inviabilizam este tipo de leitura.
A literatura (seja ela de ficção ou não-ficção) e provavelmente seus autores terão que tomar esse dado além dos suportes e grau de interação possível e provável.

Tempos novos, interessantes e de muitos desafios.

Felizmente acho que muito poucos ainda põem em questão o término do livro.
Há algo aqui que envolve a qualidade de leitores. O bom leitor é arguto, perspicaz e caminha com o escritor. Busca todo o tempo interlocução de idéias e conteúdo. E talvez aqui exista a maior fragilidade a ser vencida. O verdadeiro leitor é antes de tudo um ser crítico. Não no sentido pejorativo de gostar ou não das coisas, mas no sentido de saber ser interlocutor fazendo as perguntas adequadas ao lido e as transpondo para seu universo de atuação. 
É assim que se constrói repertório: ler; questionar; reformular e aplicar.

Cada vez mais as pessoas acabam reproduzindo o lido é neste sentido que quero instigar os leitores a irem além do escrito e propor novos caminhos para antigos questionamentos.


Caso queira aprofundar esse tema sugiro a leitura da série de posts que fiz sobre Escritores e Leitores em tempos digitais que você pode clicar aqui, e aqui e também aqui.

Referências:
Danziger, Leila - O Jornal e o Esquecimento

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7 comentários:

  1. Mais uma delícia de texto, Eliana. Muitas vezes fico desapontado até mesmo com os textos enxutos do meu blog sobre quadrinhos e cultura pop japonesa. Tantas e tantas vezes, já vi comentarem algo que me deu a certeza absoluta de que não leram o texto até o fim ou que leram com tanta pressa que entenderam o contrário do que eu estava informando.

    Antes de exercitarem seu senso crítico, sua capacidade de analisar e pensar, as pessoas precisam puxar o freio de mão (se é que isso é possível) para ler realmente, não apenas correr os olhos e clicar em "curtir" ou "compartilhar".

    Grande abraço!

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    1. Olá Ale...
      Muito obrigada pelas palavras e incentivo!
      Acho que vc tem imensa razão e esse foi um dos motivadores para esse post.
      Quando comecei a escrever os posts comecei a me preocupar com os seus tamanhos. Meu editor favorito sempre diz que meus textos são longos: sou prolixa!
      Mas parei de me importar. Quem quiser tirar proveito terá de tomar tempo para ler. Se ler pelas metades terá apenas cacos de idéias e que provavelmente não comporão uma ideia inteira. Mas paciência... Isso não podemos fazer por ninguém! Cada um precisa se conscientizar que tirará muito mais proveito de uma leitura quieta com interlocução.
      Vejo muiot isso que vc relata nas postagens que faço no LinkedIn de noticias. As pessoas simplesmente não clicam no link! É INACREDITÁVEL, elas perguntam coisas que se tivessem simplesmente clicado encontrariam. O pior é que isso não tem nem idade e nem cargo. Vejo pessoas de todas as idades e orientações profissionais.
      O meu conforto é que tbm tenho muitos interlocutores, que como vc, me fazem crer que não estou falando sozinha!
      Abs e muito grata pela troca e leitura

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  2. Cara Eliana
    "Felizmente acho que muito poucos ainda põem em questão o término do livro."
    Não consigo me livrar dessa sua frase.
    Ainda, acredito que mesmo com o fim do livro-tecnologia (sic), a leitura e a escrita, ou melhor, a escrita e a leitura, pois essa é a sequência certa, são inerentes ao homem. Acabarão um átimo antes dele.
    Defendo que, antes mesmo de abrirmos os olhos ao tomarmos consciência, ao acordar, fazemos leituras. Nosso corpo lê, nossos sentidos leem e nos trazem informações sobre o entorno (calor, frio, chuva, odores, sons) imediato. Sim, sei que esta noção é uma ampliação do seu assunto à potência n, mas veja; o livro É uma focalização extrema da leitura. Uma focalização que a tecnologia não conseguiu suplantar... ainda. E dificilmente o fará, pois quem lê somos nós: "homens". Unidades carbono de baixa tecnologia, diriam os Borgs.
    O que pode haver cada vez menos, talvez... muito talvez, é aquela leitura com tempo, pausada e comparada com informações particulares anteriores, o famoso: repertório mental, que cada leitor independente faz do lido. Onde em troca do aumento de velocidade(*) desenvolveríamos um resumo visual (falho) de relatórios (falhos, pois criados a partir daqueles) repetindo-se ad nauseam. Alguns chamam a isto de "skimming". A possível soma disso tudo é óbvia, mas somente para quem tenha alternativas, parâmetros de comparação, opções de leitura e escrita. Mas estas requerem tempo, pausa e comparações com informações particulares.
    Onde será que eu já ouvi isso antes?
    Mas, a origem deste comentário é outra vereda completamente. A origem é mesmo este link aqui:

    http://prevenblog.com/los-6-beneficios-de-la-lectura-como-medicina-antiestres/#

    que me fez parar e perceber a leitura como bálsamo anti-estress. Também!

    (*) Você consegue realmente perceber a diferença de desempenho não-numérico entre um 286 e um Pentium, ou um processador dual-core e um octa-core?

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  3. Ol@ Lionel...
    O que poderia eu acrescentar ao teu comentário?
    Fico muito agradecida por meu post despretensioso poder fazê-lo ir na direção de seus sentimentos para buscar o tema de leitura e essa relação estreita que tecemos com ela.
    Obrigadíssim@ por transcender ao texto e fazer o que aponto no post: ser leitor perspicaz, atento e imbuído de verdadeiro espírito de troca e interlocução.
    Adorei ter apontado sobre as muitos faces de que a leitura pode ser feita e de que essa ocorre principalmente quando deixamos nossas sensibilidades atentas e disponíveis ao diálogo´. Talvez seja por isso que tenhamos tão poucos leitores de qualidade hj em dia: ler necessita de envolvimento! E a maioria das pessoas prefere passar pela leitura, sem o comprometimento devido.
    Abs

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  4. Eliana, seu texto veio ao encontro de uma preocupação que tenho tido ultimamente: estamos presenciando uma geração que não consegue ler sem imagens intercaladas ao texto. Tenho uma filha de 10 anos e tento estimular a leitura da maneira que líamos antigamente, ou seja, sem imagens de modo que era gostoso ficar imaginando as cenas e as imagens que não continham no texto. Como a novela de rádio, que ouvia com minha mãe. Atualmente, deslizamos o dedo na tela para visualizar muitas imagens e algumas poucas frases. Diante disso, eu me pergunto: como será o leitor do futuro?

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  5. Ol@ Miriam...
    Tentando responder a esta tua inquitação e que também é a minha, escrevi uma série de artigos que intitulei:
    1. Em Tempos de Tintas Digitais: Escritos e Leitores - Parte I
    http://pensadosatinta.blogspot.com.br/2014/03/em-tempos-de-tintas-digitais-escritos-e.html
    2. Em Tempos de Tintas Digitais: Escritos e Leitores - Parte II
    http://pensadosatinta.blogspot.com.br/2014/03/em-tempos-de-tintas-digitais-escritos-e_23.html
    3. Em Tempos de Tintas Digitais: Escritos e Leitores - Parte III
    http://pensadosatinta.blogspot.com.br/2014/04/em-tempos-de-tintas-digitais-escritos-e.html
    4. Geração Touchscreen
    http://pensadosatinta.blogspot.com.br/2014/06/geracao-touchscreen.html
    Abs e espero que com eles eu te responda! Divirta-se...

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  6. Acho que chegamos ao fim da leitura, se considerarmos o leitor mediano nacional, que me parece cada vez mais medíocre e analfabeto funcional, à deriva no oceano sem fim da internet e agora vitimado pela sanha proselitista dos emergentes pentecostais e neopentecostais, que, através de seus pastores políticos, formam um exército crescente de zumbis e conquistam mais espaço na política e sociedade. É por achar que uma minoria intelectual continua firme e forte que creio que não vão faltar livros impressos e sua imensa variedade de títulos. Afinal, essa pequena massa crítica também cresce quase na mesma proporção da população mundial, que já ultrapassa os sete bilhões de almas.

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