24 de abr de 2014

Como se constrói uma Narrativa Fotográfica?

Por: Eliana Rezende

Pare, pense e responda:
Você vai fazer uma longa viagem, somente poderá levar uma mala de mão com alguns pertences. O quê você levaria, quais objetos seriam sua escolha? O que seria fundamental?


Em 1995, a Secretaria de Saúde do Estado de New York, desativou o Sanatório Mental de Willard, em Syracuse. um edifício de arquitetura vitoriana que abriu suas portas em 1893. Antes de concluir o fechamento, o funcionário Bev Courtwright, foi incumbido de fazer uma vistoria para determinar o que poderia ser recuperado (antiguidades, mobília, etc.). Ao executá-la, o funcionário abriu a porta de um dos sótãos, e descobriu um tesouro: uma coleção de mais de 400 malas (429, mais precisamente) com pertences de antigos pacientes da instituição, datando de 1910 até fins dos anos 1960.

Craig Williams adquiriu as malas para o Museu do Estado de New York e as incorporou à Coleção Permanente da instituição. No ano de 2003 ela originou uma exposição que o fotógrafo Jon Crispin pode ver e interessou-se em documentar através de registros fotográficos tais pertences. Contar um pouco desses pacientes que, a partir de um dado momento de suas vidas foram internados e viveram ali até suas mortes. Poderiam ser trilhas para as histórias prováveis desses pacientes a partir daquilo que carregaram consigo no momento de sua internação.

A escolha deste argumento para meu post não foi aleatória. Achei belíssima a proposta do artista e a forma sensível com que lançou luz aos objetos para que, combinados entre si, fossem crônica do pensado e vivido por um paciente recluso devido aos fantasmas mentais que os habitavam.
Através do singelo olhar do fotógrafo, foi-nos possível conhecer o conjunto de objetos, e descobrir neles indícios e links da vida vivida e sentida desses pacientes.

Seu ensaio fotográfico tornou-se, pelo seu conjunto, uma narrativa.

Convido-os a vir comigo e ver o resultado desse ensaio. Preparei uma apresentação para que tenham a oportunidade de perscrutar algumas dessas muitas vidas e seus fragmentos:


Conheça mais o projeto e seu idealizador clicando aqui:

Na área de História chamamos de Cultura Material o trabalho de ver nesses objetos pequenas notas de existências e pequenos trechos de possíveis longas histórias. Da reunião desses objetos tem-se uma micro-história. Os objetos assim, possuem uma biografia, uma trajetória que o insere em um determinado contexto.

São como pontos que tecem um fio... cada fio conta uma história.

Como destaco em um artigo que escrevi sobre a fotografia e cultura material, que você pode ler na íntegra aqui, de onde o trecho abaixo foi tirado:
"Seria bom frisar que, no caso do documento fotográfico, temos sempre um objeto único e, portanto, com características muito peculiares. No entanto, se tecermos a rede das tramas que nos trouxeram a estes objetos, sozinhos ou em coleções, chegaremos a horizontes mas amplos." (Rezende, 2007)
Lidar com tais documentos tridimensionais requereu por parte do fotógrafo um cuidado extremo, e mais do que tudo: apoio interdisciplinar de profissionais de várias áreas. Acompanhe um vídeo produzido para mostrar como foi o trabalho de produção do ensaio fotográfico:

Todo esse trabalho feito pelo museu de identificar cada um dos pacientes e suas respectivas malas podem ser conhecidos, eis o link. Gostaria que percebessem porque a História é algo tão fascinante para mim. Na realidade, tais fragmentos abrem janelas de possibilidades que fornecem pontes de acesso, elos que ligam a um outro tempo. Sem estes toda a leitura do conjunto ficaria dificultada.

Ao fotografar tais objetos, o fotógrafo nos direciona o olhar. Fragmenta e enfoca o tema para fixarmos nossa atenção. Depois desse momento, todas as leituras são possíveis a partir do repertório, interesses e indagações de cada um. Um historiador olhará de forma diferente que um autor ficcional, por exemplo. Cada um lançará viés próprio.

As imagens nos remetem a uma certa intimidade de um tempo e de determinadas histórias que estavam perdendo suas referências, identidades e memórias. Confinadas num espaço de reclusão podem ser alcançadas pelos rastros e vestígios que deixaram e que traziam de uma vida pregressa, que teve que ficar do lado de fora dos muros de sua reclusão. Muitos deles deixaram suas vidas ali mesmo na instituição. Nunca mais retornaram às suas origens.

Por serem registros tomados com sensibilidade nos trazem uma beleza quase roubada de uma existência que se foi. Uma história que passou.

O projeto do fotógrafo de fato nos permite caminhar por esse horizonte de análise de documentos e o qual convencionamos chamar de Cultura Material. Lógico que aqui não é uma aula, mas é um meio de conhecerem um pouco outras formas e fontes documentais que servem à pesquisa e à organização documental.

Percebem como 'documento' é uma categoria muito mais ampla do que simplesmente a que o senso comum costuma imaginar?

Ao término, fica a pergunta: conseguiu decidir o que tua mala conteria? Que pistas deixaria para investigações e elucubrações futuras? O que teus vestígios revelariam?

E de tudo o que viu? Qual a sua narrativa?

As minhas narrativas sobre Fotografia e História seguirão em outros posts.

Aguarde!

*
Este post recebeu uma versão atualizada no meu Portal e que pode ser lida aqui:
Fotografia como Documento e Narrativas Possíveis

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Referências:

Ginzburg, Carlo. "Mitos, Emblemas e Sinais - Morfologia e História". São Paulo, Companhia das Letras, 1986. Veja link: 
Meneses, Ulpiano T. Bezerra de. "Memória e Cultura Material: Documentos Pessoais no Espaço Público".
Meneses, Ulpiano T. Bezerra de. "A cultura material no estudo das sociedades antigas". Veja link:
Rede, Marcelo. "Estudos de cultura material: uma vertente francesa". Veja link:
Rezende, Eliana Almeida de Souza. "Construindo imagens, fazendo clichês: fotógrafos pela cidade".  Veja link:

Créditos:
Todas as imagens aqui apresentadas são de direitos autorais do fotógrafo Jon Crispin



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Pots relacionados:

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7 comentários:

  1. Oi Eliana:
    As malas como a leitura que cada uma criatura faz da sua própria vida até aquele momento. E, as coisas às quais conferem algum valor, o suficiente para separar cuidadosamente -ou não- e levar consigo, como vimos. Reverso das medalhas que vemos diáriamente. É de uma intimidade avassaladora! É (esse ensaio e outros parecidos com ele) de uma beleza que cosmética nem efeitos especiais conseguem sequer imaginar.
    Belas fotos.
    Como dizes: "Seria bom frisar que, no caso do documento fotográfico, temos sempre um objeto único e, portanto, com carcterísticas muito peculiares. No entanto, se tecermos a rede das tramas que nos trouxeram a estes objetos, sozinhos ou em coleções, chegaremos a horizontes mas amplos." (Rezende, 2007) Estes horizontes deverão estar permeados por códigos comuns, pontes sólidas entre significantes e significados, que hão de ser percorridas pelo leitor-visitante. Quando estas "pontes" inexistem, a leitura do documento se torna difusa e se confunde e perde cada vez mais na medida em que os códigos são mais estranhos entre si. O que escrevo só entendes se (eu) usar tua mesma sintaxe ou uma à qual estejas acostumada. Com os mesmos elementos podemos tecer (mudando a tal sintaxe) obras completamente "abertas" (Eco, 1962). Mesmo o documento fotográfico pode ser lido (interpretado) de várias formas... todas corretas. A poetica do olhar não fica restrita ao campo fotográfico definido pelo artista na hora de fazer a foto. A primeira impressão é a dele. Depois disso -all hell breaks loose- e todas as leituras valem!
    Ótima leitura...
    Imagine o caso em questão: uma tentativa de transpor e transferir, para suportes que achávamos perenes, as vidas de outrem. Imagine a fragilidade dos "contatos com a realidade" e os parâmetros pessoais usados para validar imagens, sensações, sentimentos e lembranças e conseguir transferi-las para ícones -pois não passam disso-: sapatos usados, fotos velhas, escovas, cadernos rasgados, roupas, um bric-a-brac de vidas-histórias. Onde a "realidade(sanidade)" é ditada por outros e os parâmetros são desenvolvidos intimamente a cada novo dia, um a um, como os fios da aranha. Estes ícones expropriados foram/são julgados em relação por nosoutros, os sãos... que invariavelmente usarão(emos) seus próprios parâmetros ao fazê-lo.
    Quantos não pensaram: "quinquilharias" ao ver a vida dos outros exposta sem as roupas de rei? Nus dentro de malas.
    Quantos de nós encheriamos de "quinquilharias" nossas próprias malas?
    Ótimo post...
    Abs

    LionelC
    1521

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    1. Ol@ Lionel...
      Tão bom ler seus comentários!
      São verdadeiros incentivos para que eu continue a escrever. Assim tenho garantido leitores tão atentos qto vc e outros tantos.
      Sim vc tem razão!
      As malas servem sempre ao sentido metafórico do que sejam nossas memórias e vidas.
      Minha vida de andarilha errante fez-me sempre estar oscilando entre vidas e mundos. As malas portanto, sempre fizeram parte de minha vida.
      Mudei de pais várias vezes e de cidades outras tantas. A cada chegada ou partida a tarefa de arrumar malas significava para mim o momento de "ordenar existências". Era o meu encontro com o que deixava ou carregava comigo.
      Vezes sem conta levava dias e em alguns momentos de angustias e incertezas chegou a levar mais de um mês para as desfazer.
      O caso aqui utilizado como mote para o post é exatamente o que alguém que estava sendo confinado em um manicômio levaria consigo...ou quem sabe o fariam levar para uma viagem que provavelmente não teria volta.
      Belíssimo sob esse aspecto, pois aponta uma certa quantidade de valores tangíveis e intangíveis e que só fazem sentido ao seu possuidor. De qualquer forma, podemos inferir possibilidades, intenções, trechos de uma história nem dita nem escrita, apenas disposta em retalhos como num caleidoscópio.
      De outra parte e não menos sedutor para mim que sou historiadora e tbm arquivista é o sentido que tal documentação de cultura material pode ajudar a tecer trilhas de existências que se foram.
      Foi mesmo uma delicia escrever e pensar sobre tudo isso...
      Abs e muito grata pela interlocução

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  2. Olá, Eliana! Confesso que pensei em dois conteúdos diferentes para minha mala, quando li a pergunta no início e depois quando você repete a pergunta no final. Acho que na primeira, pensei na funcionalidade: o que seria útil e essencial nessa viagem. Na segunda pensei no que não me deixaria esquecer de quem eu sou. Tão reveladora é a mala, concreta e simbolicamente. Como metáfora do que carregamos pela vida, do que consideramos valioso, do que nos garantirá identidade e continente quando estivermos muito "longe de casa".
    Seu post me capturou no linkedin, pela beleza e sensibilidade de todos os envolvidos: Bev, Craig, Jon e, claro, você! Claro que sabemos que há dor na história dessas pessoas, mas o conteúdo da mala conta o que era significativo para cada uma delas. Gostei do que você falou: "Um historiador olhará de forma diferente que um autor ficcional, por exemplo. Cada um lançará viés próprio." Sou psicóloga e já atuei em instituições de idosos e psiquiátrica. Lembro muito da importância que a mala tinha para cada pessoa. Muitas vezes, era o último refúgio do que havia de identidade antes da institucionalização. Grata pela partilha! Super abraço, _/\_
    Sandra Felicidade

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    1. Ol@ Sandra...
      Que boa a minha pescaria, heim?!
      Consegui te pinçar em meio a um mar de tantas possibilidades? Que bom!
      De fato, como disse acima ao LIonel, para mim as malas tem esse sentido mesmo e muits vezes po-las em ordem qdo retorno ou parto ajuda-me a me comunicar com meu interior. É muito interessante essa passagem e as sensações que me despertam.
      Mas para além de mim creio que o seu sentido para um paciente psiquiátrico é ainda mais forte.
      Por ser historiadora, lido muito com as memórias das pessoas e sei o qto objetos pessoais são elementos de ligação com uma trajetória, um passado, uma vida. Despertam sentimentos e emoções que muitas vezes não cabem entre duas linhas. São carregadas de sentimentos e portam com poucas coisas aquilo que e precioso para cada um.
      E foi nesse sentido que acho que o ensaio é tão forte. Somos alçados a estas vidas através de seus pertences pessoais.
      Lógico está que essa viagem dependerá de onde partimos, com qual olhar, e com quais inquietações. Por isso citei a diferença do olhar do historiador e do escritor de ficção, assim como um psicólogo verá de maneira diferente do que um jornalista.
      O fundamental e termos a dimensão exata do que este ensaio revela: a humanidade vivida deixada nesses pequenos vestígios.
      Abs e continue nos visitando, será um prazer!

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  3. Adorei o artigo e os registros fotográficos e em vídeo. Um trabalho primoroso de pesquisa e de arte.
    Quanto a viagem, por se tratar de uma longa viajem, levaria sem dúvida a foto de pessoas muito queridas, como a de meus pais, par não me distanciar muito tempo de minhas referências. Levaria também, um caderno de telefones e endereços, além é claro de meus documentos pessoais, tudo que me identificasse e que me remetesse a minhas raízes. Mas, com a mesma importância levaria, também, um caderno de anotações para registrar todas as impressões que vivenciasse pelos lugares que eu passasse. E se ainda sobrasse algum espaço na pequena maleta, levaria é claro, todas a miudezas que uma mulher vaidosa como eu, jamais deixaria de levar em uma viagem!!!

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  4. Olá Eliana,

    obrigada por compartilhar os registros e seu conhecimento. Realmente ampliou muito meu entendimento sobre "documento". Adorei!
    Telma Moretti

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  5. Oi Eliana, oi Grupo.
    Pois é...Não fui capaz de responder a sua pergunta, nem no início e nem ao final.
    Mas as fotos e o pequeno filme conseguiram me emocionar bastante.
    Curioso isso, não há sangue, não há violência, não há maus tratos explícitos, mas há muita energia, gostos, preferências e (fios de) esperança, e, para mim, um enorme ponto de interrogação.
    E não consegui "decolar".
    Fiquei preso numa teia estranha que tentava imaginar o significado de cada item e de seu conjunto, e os diferentes (e intrigantes) conjuntos contidos em cada uma das malas.
    E... a vontade de tentar discorrer sobre cada mala e o perfil / motivo de seu dono em agrupar tais itens.
    Não consigo, nem de longe, imaginar minha reação pessoalmente diante destas malas, e presenciando o ato de abrí-las.
    Lindo e forte... se é... !!! E... denso... !!!
    Abraços.
    Rui Natal

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