Ippon institucional: fim de luta para o teatro da vitimização

Por: Eliana Rezende Bethancourt 


Algumas considerações necessárias sobre essa velha máxima repetida sem pudor: o crime compensa.
De novo diante de um método velho e repetido, usado ad nauseaun




É  um tipo de mau-caratismo que opera na chave da esperteza vulgar, do cálculo curto e da reincidência travestida de narrativa. Não há sofisticação alguma, e talvez aí resida sua força: quanto mais simplório, mais facilmente consumido por quem já abdicou de qualquer esforço de elaboração.
A tal foto — alardeada como registro de alguém entre a vida e a morte — desmorona no primeiro olhar um pouco menos distraído. Corpo erguido, expressão quase satisfeita, um deboche que ri na cara de quem ainda se presta a acreditar. Não há drama, há encenação. E das mais previsíveis.
Por outro lado, é preciso reconhecer: Alexandre de Moraes leu o jogo com precisão.
Não entrou no espetáculo. Fez algo bem mais eficaz — desmontou o entorno que alimentava a cena.
Entregou à família uma situação incômoda, pesada, sem mediação pública conveniente. Cortou o fluxo contínuo de visitas, entrevistas e aparições que vinham transformando hospital, residência e até o sistema prisional em extensão de palanque político. Removeu a engrenagem da vitimização em tempo real.
Isolou.
E ao isolar, fez lembrar o óbvio que vinha sendo convenientemente esquecido: regime de prisão não é cenário ou palco, é RESTRIÇÃO.
O prazo estendido de 90 dias, sob justificativa médica, cumpre mais de uma função. Garante recuperação, sim — mas também esfria articulações, interrompe ensaios de mobilização e reduz drasticamente a capacidade de reorganização política imediata. Some-se a isso a ausência de plateia constante e temos um efeito colateral interessante: diminui a tentação — ou a oportunidade — de reincidir nos mesmos movimentos que já produziram consequências conhecidas.
Há, nisso tudo, um golpe limpo.
Sem confronto barulhento, sem gesto teatral, sem elevar o tom — apenas a retirada das condições que sustentavam o teatro.
Um “ippon”, para usar a imagem: imobilização completa.
E, sem plateia, resta ao ator algo que ele claramente evita — sustentar-se sem aplauso.
Estou indo ali buscar a pipoca!




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