3 de jun de 2019

Um feudo chamado internet

Por: Eliana Rezende

E não é que passadas pouquíssimas décadas encontramos a internet no que poderíamos chamar de feudo.
Muros fecharam-se ao seu redor, e ao contrário de um ideal conectado, globalizado, diversificado e livre temos exatamente o seu contrário!
Basta olhar em volta e perceber como cada um dos grandes da web criaram seus nichos de modo a excluir e hierarquizar. Algoritmos são invocados como as ferramentas não subjetivas para indicar aproximações e distanciamentos.


Basta uma simples olhada no que o Facebook anda aprontando... Não é segredo para ninguém que seu foco são cifras. Mas Zuckerberg parece estar indo longe demais, e como um grande imperador quer o poder de forma ampla total e irrestrita. Exerce sua tirania consentida contra todos os seus  'súditos', e que no geral, são cegos, surdos e mudos quanto ao que acontece à sua volta. A maioria nem pára para pensar que produz gratuitamente conteúdos para serem usados como forma de caça likes e com isso gerar renda a partir de gostos, posicionamento, etc.

Zuckerberg não está só, Google, Microsoft, Samsung tem ao seu lado a maior de todas as armas: a ignorância com alienação. Fossem seus usuários minimamente informados e não apenas uma massa de utilizadores, os domínios de seus condomínios seriam bem mais restritos.

E nesta forma de organização temos mesmo uma via larga e sem saída. É como um feudo fechado com muralhas espessas e seus servos presos ali, acreditando que não há vida para além dos muros.
A tirania é tão grande que não medem esforços para manter seus súditos presos em tempo integral: de lá ninguém sai! Videos, matérias, imagens só são ranqueados se dentro de seus domínios. E aí ninguém mais vai a lugar algum....
Um feudo exaurido em si, vicioso e reproduzindo sempre os mesmos comportamentos, visões...
A internet empobreceu-se!

O tédio instalou-se: formas, cores, padrões exaustivamente repetitivos e tolos! Usuários iguais em suas representações, rancores, preconceitos, imagens e boçalidades. 
O que era para ser um território livre para circulação de ideias e até conhecimento, hoje transformou-se em uma periferia onde o crime e submundos coexistem. É nela que a propagação de tudo o que rebaixa o humano encontra adeptos. A marginalidade virtual também significa cifras: de vidas, de crimes, violências.
Em pouquíssimos anos a internet envelheceu, deteriorou-se e apresenta muitas áreas de franca decadência.

Reconhecido isso, uma nota precisa ser feita para não cair no equívoco de culpar as tecnologias, ferramentas, aplicativos de todos os males que experimentamos. Não chegaram a isso sozinhos.
Temos que pensar que como toda e qualquer ferramenta, seu uso dependerá exclusivamente de seu usuário e de acordo com suas necessidade mais imediatas. Em geral, a ferramenta poderá oferecer uma infinidade de recursos e possibilidades mais sofisticados, que provavelmente cairão em desuso exatamente pelo conforto que este usuário sente em permanecer naquilo que é mais simples e raso.
Imagino que este caso exemplifica bem o caso da web. Ela possui inúmeros recursos e possibilidades, mas por uma atitude de consumo passivo seus usuários preferem ficar numa superfície onde a mesmice é garantida sem qualquer esforço de novas aprendizagens.


Tal acomodação limitante, e escolhida pelo usuário, tem levado ao atual estado das coisas.
Um circulo vicioso e tortuoso, de repetição infinita, de mais do mesmo todo o tempo. Assim Portais, Sites e Redes Sociais repetem o padrão cansativo de uma imagem, uma frase e quando muito um pequeno texto. Preferências e visualizações são definidas não por seus usuários, mas a partir de escolhas algorítmicas, e as pessoas, cada vez mais, optam por viver em seus micro-feudos (bolhas) onde consideram que estão a salvo de invasores de mentes, corpos, ideias, pensamentos. A escolha pelo sempre igual, exclui diferentes e o Outro cada vez mais é visto como aquele a ser combatido, excluído, vencido e se possível dizimado. Hordas de iguais combatem os Diferentes e o clima bélico se espalha pelo mundo com uma capacidade destrutiva nunca antes vista.
A internet naturalizou a ignorância, a boçalidade e o desrespeito.
Perde-se tempo imenso com tudo o que não importa e o sentido real das coisas se esvai.
As relações passam a ser efêmeras e não resistem à primeira dificuldade: exclusões, linchamentos, bloqueios e denúncias são as principais armas.
O bom debate há muito deixou de ser usado.

A escrita fonética, cifrada e carregada dos hieroglifos do século XXI (emojis)  são a regra. A economia silábica alcança a todos, em especial o território das ideias. A profundidade dos debates são tão rasos como uma lâmina de barbear. A superficialidade é cultiva como forma de garantir seguidores. Já que estes não toleram textos que possuam mais que um parágrafo. Brinda-se a capacidade de superficialidade pela quantidade de ignorância compartilhada.

Mesmo a dita Inteligência Artificial acaba por ter como mote em muitos casos transformar seus usuários em autômatos, já que apresenta decisões previamente estabelecidas por algoritmos e aprendizagem artificial. Cá comigo considero muito mais perda do que acréscimos seu uso para o desenvolvimento de pensamento criativo e inovador. Ainda acredito no elemento humano como capaz de encontrar flexibilidade e inteligência emocional para responder demandas diversas. Desconfio muitíssimo daquilo que não mora em mim e em meus sentidos.
Investir massivamente nesta inteligência artificial pode, a médio e longo prazo, reduzir ainda mais as potencialidades dos seres humanos se relacionar e encontrar respostas para o mundo que os cerca.
O que dou como certo e claro é que este modo de funcionamento da web e seus usuários não resistirá outra década.
Terão que se reinventar ou morrer.

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