10 de dez de 2018

O carcereiro de nossas almas

Por: Eliana Rezende

As masmorras de nossas existências possuem muitas divisões: servem para aprisionar, enquadrar e muitas vezes sufocar o que de mais livre possa nos habitar. Como qualquer fortaleza possui paredes grossas que limitam o que entra e o que sai. Limitam espaços, circulação. Servem para dar a impressão de que tudo está seguro e imutável.


Mas toda esta infra-estrutura precisa de bons carcereiros. Eles que garantem que o aprisionamento se efetive. Que nada escape, e que a sobrevivência seja garantida pelo tempo com o mínimo possível. Mínimo de investimentos, de pensamentos, de tentativas de fuga...resistência. Lá dentro o prisioneiro perde a noção do tempo, das horas, das estações. Simplesmente deixa-se ficar!
E talvez seja neste ponto que o mais cruel se dá: carcereiros de nós mesmos mantemos nosso espírito ali, aprisionado, para que não fuja, para que não saia do controle de nossas masmorras de medos, conveniências, covardias, inseguranças, justificativas. Quanto maiores todas elas, mais acharemos que se justificam. Tornamo-nos nossos próprios carrascos. Caminhamos de cela em cela, com as chaves nos bolsos, mas completamente refratários a tudo o que significa a liberdade do principal prisioneiro: nós mesmos!


E assim, o tempo e a vida se sucedem: oportunidades se dão, vidas se cruzam, caminhos se fazem, horizontes se descortinam. Mas nosso carcereiro está ali e realiza tão bem seu trabalho!
A vida e o tempo passam. A masmorra envelhece. Musgos a tomam. Ao andarilho da estrada fica a sensação de que ali toda a construção converteu-se num túmulo que guardava corpos e mentes, e que hoje restam apenas seus escombros. A ninguém pertence. Transformou-se num projeto do que não foi...
Assim, carcereiros de si mesmos reproduzem-se aos montes sem nem mesmo se dar conta.



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23 de out de 2018

Quando a ficção vem pra rua...

Por: Eliana Rezende

É assim mesmo que nos sentimos quando lutamos contra o fascismo, o obscurantismo?

Perdoem-me todos, mas nunca havia lutado contra um fascista de verdade. Em geral, achava que habitavam as ficções e os livros de história. Considerava que sua periculosidade era componente apenas de minha imaginação.

Posteriormente os conheci através de relatos de depoimentos colhidos na área de História Oral sobre os movimentos sociais ligados à Igreja Católica e que resistiam aos anos de chumbo no Brasil (o trabalho desenvolvido possui um acervo riquíssimo que pode ser consultado na CEDIC/PUC-SP).
As vozes ali ganhavam tons, entonação, lágrimas e sofrimento. Foram se desvendando para mim e fui descobrindo que a vida real os trazia em toda a sua truculência e perversidade contra os diferentes.
Eram perseguidos, presos, violados e violentados de todas as formas e maneiras, sob acusações vis e mentirosas. O seu principal crime? Não concordar com a Ditadura e a perda de direitos civis simples: como se reunir, pensar ou votar.
Descobri através dos relatos destes sobreviventes que torturadores são sempre covardes: escondem-se atras de armas, truculência, violência e turbas. Que motivos não precisam existir, basta apenas a diferença de pensamento, conduta, objetivos, opções. Não há espaço para o contraditório além da força e coerção.

Nos últimos dias, no entanto, todos eles saíram desta minha ficção e pesquisas históricas e os vejo povoar ruas, em conversas de botequim e com muito maior virulência e maior estupidez nas redes sociais. Nos inundam com um jorro imundo de xingamentos, preconceitos, abordagens rasas de análise conjunturais, equívocos imensos de história e cultura. Um caldo amalgamado do pior que a humanidade nos consegue oferecer, e para não falar da associação entre convicções e doutrinação pelo uso da fé de alguns. É o fundamentalismo que se agrega à ódios profundos, cegos e irracionais.

Pensava que a ficção sempre exagerava tipos sociais. Mas tenho visto que era ignorante sobre o tema: a realidade é mais crua, fétida, perversa.

Tenho me sentido estarrecida com o grau de brutalidade possível em pleno século XXI, quando as redes sociais parecem fuzis e canhões para canalizar o ódio e derramar mentiras, enganos, construir "verdades" e até supostos mitos.

Mas a História não é tão simples assim. Supostas 'verdades' podem ser pretensamente construídas hoje, mas serão completamente destruídas quando o Tempo por elas passar.

Mas como sempre, achamos que as bombas só caem nos vizinhos! É muito estranho de repente sabermos que estamos cercados: nosso vizinho, nosso colega de trabalho, nosso tio, até um ou outro amigo(a) ou o dono da padaria... 
O fascismo assusta exatamente porque parece ser contagiante!

Freud talvez explique melhor esta projeção no Outro de tudo o que existe de pior em nós. A perplexidade aqui é constatar que em verdade o mal não mora no Outro, mas dentro de cada um que o reconhece, amplifica, dissemina e distribui num ódio cego, irracional e preconceituoso. Assim, o que temos hoje é UM que amplifica os demônios que habitam em TODOS e o Outro é o humano a ser abatido quer por balas, quer por palavras, quer por vídeos falsos e baratos, por mentiras, truculência.

A perplexidade me avassala, pois esta violência é indistinta e distribuída democraticamente: encontramos pobres, ricos, endinheirados ou remediados, analfabetos ou diplomados, brancos, pretos, mulatos, todos com os pensamentos mais rasteiros possíveis sobre a diferença, a diversidade.

E constato que afinal: o mal habita o humano indistintamente.

Basta apenas alguém que o queira cultivar...

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11 de out de 2018

Limpe sua timeline e desarme-se!

Por: Eliana Rezende

Hoje levantei com o espírito de desarmar-me. Olhei bem para a minha timeline e vi que a partir de tantas conexões e escolhas algorítmicas muito lixo estava sendo despejado. Likes que não me representam, idéias que não compartilho, pensamentos enviesados, muita desinformação, fakes em grande escala de pessoas que absolutamente não me dizem nada além do próprio ódio e preconceito que carregam. Opiniões rasas e visões distorcidas de mundo e contextos. Resolvi inciar um processo de desintoxicação e faxina da minha timeline, removendo todo este tipo de conexões que definitivamente não me acrescentam nada, e muito pelo contrário: me trazem seu mau humor, seus rancores e uma série de sentimentos muito pequenos e insignificantes. A sensação foi libertadora! Timelines não são odorizadas, mas fiquei com a sensação que de repente estava tudo limpo e perfumado. Um alívio! Por isso, sugiro que reflitam sobre isso e iniciem esta semana uma faxina na sua. Irão se sentir aliviadíssimos, eu garanto! Amanheça e vá dormir em paz, sem jogar toxinas no fígado: isso estraga a pele e faz mal ao coração! Afinal, você faz suas escolhas, e suas escolhas fazem você! Simples e libertador assim....

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8 de ago de 2018

O Futebol como Metáfora (De Copa em Copa)

Por: Eliana Rezende

Este post começou a ser escrito em 2010.
A cada Copa que se sucedia tentava não ser imediatista, e como historiadora que sou dei tempo ao tempo. Longe das paixões e decepções de momento fui tecendo um bordado de impressões, e os armazenando em gavetas de existências, típicas e caras dos que escrevem sem pressa, como citei no meu post "Palavras Vincadas". 
Como retalhos numa colcha de patchwork as impressões foram se sobrepondo e o resultado deixo para apreciação coletiva, como coletivo é o jogo e todas as discussões decorrentes.

De cada derrota, o que sempre fica, é a de que o futebol é mesmo uma boa metáfora para nossas existências, sejam elas pessoais, profissionais, acadêmicas ou outras quaisquer.



2010: 
Acho que são horas de contabilizar...
Não foi um Mundial que deixou muitas saudades.
Alguns jogos realmente deram-me o prazer da contemplação e de enxergar, nos dribles, metáforas da existência. De enxergar nas ações e atuações de homens e seleções muito do humano: quase sempre carregado de emoções e exitações, lutas com vitórias, lutas em meio à derrotas e até vitória em meio a uma derrota. Ganhar e perder pode ser apenas um ponto de vista... um detalhe diante de todo um contexto. E os jogos são antes de placares feitos de contextos!     
Cri muito na força e juventude alemã... mas foram apenas uma grande promessa que não se cumpriu: tinham tantas possibilidades! Tantos meios... e se deixaram levar, quem sabe pela própria imaturidade dos jovens, não sei...

Mas guardarei sempre a luta em pé até o final do Paraguai contra a própria Espanha e os lindos momentos de força vinda das entranhas do Uruguai. De fato orgulhei-me muito de ver que também se perde com honra e dignidade. Merecidamente o melhor jogador da Copa vem do Uruguai... Para mim dos melhores jogos da Copa, nem tanto pela qualidade técnica, mas pela luta foi Gana vs Uruguai, Uruguai vs Alemanha.

A perplexidade diante de Alemanha vs Argentina (creia você ou não, torci de coração pela Argentina e muitos, muitos brasileiros também!).
Não posso deixar de falar do personagem Maradona... Impressionou-me, e ao final já torcia por ele! Foi comedido quando precisava, incentivador e melhor que tudo: teve tanta dignidade ao perder! Bravo! Bravíssimo! Cumprimento ao vencedor e beijos em cada um de seus meninos. Quanta diferença do Dunga. Erraram o nome do anão: deveria chamar-se Zangado. Uma vergonha nacional! Pra não falar do futebol pequeno e medíocre que apresentamos. 
Vejamos o que nos reserva 2014...




Das metáforas o que fica pra mim é que o quê vale mesmo não é ganhar ou perder: é lutar! E se tiver que cair que seja de pé e não envergonhado caído e consumido pela impotência diante de um jogo que não se sabe jogar... ou ainda pior: desistir de lutar e deixar que o jogo do outro nos consuma, anule ou sufoque. Mesmo os melhores, não são técnicos ou geniais todo o tempo. Às vezes se cansam ou fraquejam. Mas sobram ainda as possibilidade táticas e, se usadas de forma adequada, podem trazer os benefícios essenciais à sensação de ter feito algo em prol de todos. É preciso coragem e elegância para lutar até o fim e sair de cabeça erguida é o que importa!
A vida às vezes é assim: não conseguimos ser geniais todo o tempo, fraquejamos e falhamos muito e muitas vezes, mas se soubermos como nos colocarmos ante às adversidades de forma tática e adequada podemos reverter resultados adversos. 

2014: O que dizer desta Copa para o Brasil?

Sem dúvida, estará na memória de toda a nação nosso grande fiasco de 7 X 1.
Perdemos para nós mesmos!
Afinal, a ausência de equilíbrio e a permissão para que o emocional suplantasse as capacidades de realização são  causa de muitas derrotas, e em especial as derrocadas do Brasil.
A superioridade técnica, tradição, experiência e força física caíram por terra diante da ausência de inteligência emocional. Ela de fato destrói não apenas um homem, mas pode levar à rebote um time inteiro!


Para dar à volta por cima diante à adversidade é preciso ter a cabeça no lugar... não se desorganizar e permitir que a mente suplante as competências. Se a ausência de inteligência emocional encontra espaço para se instalar todo investimento é fadado ao fracasso e o desapontamento, a tristeza e impotência diante de um fato materializam-se como derrota. Passado o ponto onde se poderia ter uma capacidade de resposta o que resta é apenas o lamento e as justificativas incabíveis... uma sensação de "e se"...



2018: De novo um mundial que não aconteceu para os brasileiros...
As lições precedentes nada acrescentaram e nos vimos repetindo nos mesmos erros e concepções.
O futebol há tempos se descolou do que seja a Identidade nacional.
O Mercado apropriou-se do que deveria ser a nossa cultura de pés com ginga e cria simulacros de craques que embevecidos pela imagem que a mídia lhes conta, acreditam ter méritos especiais e esquecessem-se de que no futebol é preciso a arte de aliar pés, mentes e corpos: não há jogo de um só!
Pela primeira vez em décadas não assisti a um jogo sequer.

As crônicas que escrevia após cada jogo cessaram. Silenciosas estão como todos os meus sentimentos em relação aos jogos que são apenas espetáculos midiáticos. Jogos, jogadores, torcidas são apenas um amálgama "vendidos" como marketing. Tudo tão plastificado, igual... monótono...

O que senti, todo o tempo, foi um tédio horroroso por uma repetição medíocre de atuações, coberturas jornalísticas, comportamentos... em campo, extracampo...
Quem sabe um dia volte a gostar de ver os jogos. O atual momento para mim é apenas de quietude...
Só consigo pensar o quanto nosso futebol saiu das ruas e a identidade de seus jogadores com nossa cultura.
Os tempos hoje são outros e os jogadores simplesmente tornaram-se apenas produto de consumo. Recebem fábulas para nada fazer e mascateiam artigos de luxo: de giletes de barbear a carros, iates, jóias... Uma parafernália que nada tem que ver com campinhos de várzeas, onde meninos pobres jogam com suas primeiras bolas de meia. Muitos se deslumbram e perdem o sentido do que seja seu ofício e como este se relaciona com a cultura de um povo.

O futebol, até por ter se transformado em um produto de exportação, nivelou-se de tal forma que hoje qualquer país do mundo consegue obter resultados em uma competição internacional. Além de produzir atletas competitivos e muito bem remunerados. É certo que representam a ínfima parte do que seja o esporte como um todo. Mas o capitalismo aqui avançou seus tentá-los e produziu cifras. Algumas absolutamente inalcançáveis pelos reles mortais.  

É talvez toda esta homogenização globalizante que me traz uma pitada de tédio, de mais do mesmo. Não sei... 

Tempos tristes estes de globalização, redes sociais e consumo exacerbado.


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25 de jan de 2018

Sampa: a Velha Senhora...

Por: Eliana Rezende


Praça Carlos Gomes - SP
 
Sampa agoniza...
Sinto-a como uma velha senhora que está morrendo. E morre, não em seu momento de glória e vigor.
Deixa a cena de forma triste... é um corpo obeso que se movimenta com dificuldade: excedeu em muito suas capacidades de acomodar seus volumes imensos.

Suas artérias estão obstruídos e doentes. Não lhe faltam pontos de congestionamentos, deterioração, cicatrizes...
Seu pulmão falha, e quase não respira. Falta-lhe oxigenação. O cinza toma conta do ar que a alimenta. 
Seu coração é o mesmo (um centro doente e volumoso) que já não acomoda e nem irriga suficientemente suas extremidades. Muitas partes sofrem a gangrena da pobreza extremada, da violência e de todo o conjunto que a miséria humana consegue patrocinar. O coração que antes batia forte hoje arfa com dificuldades de dar pulsação e ritmo ao que está distante.

Seus intestinos param dia a dia de funcionar. Os dejetos paralisam funções e não fluem como deveriam: seus córregos, rios e esgotos são apenas um caldo de abandono e descaso. Em vez de vida pulsando e se movimentando o que há são vestígios dos restos: que se avolumam como indesejáveis e inservíveis. 

A visão turva, opaca e sem brilho lhe impede de enxergar a lucidez que antes via em fachadas, arquiteturas... as cataratas do tempo lhe tiraram a beleza límpida de cores, vistas e formas. É como se apenas silhuetas borrassem seus sentidos. A paisagem que avista é apenas uma sombra triste de um tempo áureo que se foi. A vanguarda arquitetônica é susbstituída por ruínas ou bota-a-baixo todo o tempo... clareiras de cimento se abrem para serem transformadas em áreas de estacionamento ou prédios que massificam e acumulam pessoas em cubículos sem graça.

A velha senhora hoje vive de memórias retrógradas cozinhadas em banho-maria pelo abandono. O espelho mostra o quanto os anos lhe marcaram e trouxeram desgaste e imobilidade. Não se identifica com o reflexo no espelho. Nem mesmo nas suas velhas fotografias.

Suas vestimentas e ornatos estão puídos, largados, sujos... Não possui mais bens de valor e seus adornos quase não existem mais. Expropriadas por tudo e todos. Viu na passagem do tempo suas edificações e  equipamentos urbanos ser diuturnamente roubados, quebrados, destruídos.

Já não ouve tão bem: os sons são muitos e lhe sobram apenas ruídos sem nexo. Muito barulho e quase nenhuma nitidez.
E apesar de toda a velhice e decadência, ainda chegam-lhe, ávidos, os que buscam as imagens de seu passado.
Triste confronto a todos, pois no espelho só há uma projeção disforme... de uma passado que se foi...nada além...

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5 de jan de 2018

Contradições natalinas

Por: Eliana Rezende


A humanidade é mesmo um mosaico de contradições que se manifestam sob vários aspectos.
Saio quase como que uma sobrevivente da que considero uma das maiores contradições ocidentais: o Natal!
O tempo tem passado e meu desconforto com esta data é inversamente proporcional a publicidade em seu entorno.
Não sei se pelo calor, congestionamentos, consumismo desenfreado, excessos de gestos, embriaguez, gulas e outras sandices guardo desta época profundo mal estar e péssimo humor.

Lia outro dia como o Natal é de fato, o maior exemplo de como se descumprir em apenas um dia um rosário de boas regras e condutas cristãs.
Vejamos:

Segundo o professor do Instituto de Psicologia da USP Cristian Dunker que analisa que o Natal vinculado ao consumo nega ponto a ponto os valores originários do cristianismo. Para os que não sabem quais são ou nem se lembra deles aí vão:
"(...) o altruísmo, e não a cobiça com os presentes; 
a sobriedade, e não a ostentação de árvores, luzes e enfeites; 
a felicidade imaterial gerada pelo amor como renúncia, e não o prazer material; e 
a comunidade de iguais e fraternos diante do Senhor, e não o individualismo e a concorrência entre diferentes modalidades, mais ricas ou mais pobres de convivialidade”(...)".

De minha parte vou ainda mais longe e explico as razões do meu mau humor com a data:

Andando pelas ruas, tanto nas vésperas como no próprio dia do evento, só o que vejo são pessoas vivendo seus excessos das formas mais primitivas: egocentrismo acentuado onde tudo o que é seu precisa ser o primeiro, o mais importante - as pessoas se acotovelam, espremem-se em estacionamentos, vias marginais, vagas... querem sempre o primeiro lugar, o melhor, e simplesmente estão dispostas a qualquer coisa para obter isso: buzinar, xingar, praguejar são a regra.

As pessoas em geral, estão sempre bêbadas ou inconvenientemente altas. Trafegam com garrafas e latas de cerveja como se fossem um troféu por seu 'merecimento' à suposta felicidade que tais drogas fornecem. Licitas ou ilícitas estão por todas as partes e lugares. Enfeitam selfies e são a medida usada para o quanto se está feliz e/ou se divertindo. Mas será mesmo que há tanta felicidade atrás de sorrisos plastificados  e engessados para exibir um selfie?

Estas mesmas pessoas nos invadem com seus gestos exacerbados, carros com alto volume, gritarias, fogos de artifício (o que me causa o maior dos estranhamentos, pois afinal, o que isso tem mesmo que ver com Natal?!), ligações de celular e WhatsApp onde todos, mesmo sem querer, acabam ouvindo tudo o que é dito deste e daquele outro lado.

Por seu turno, pais e filhos nos oferecem o espetáculo dos subornos natalinos: presentes e mimos são oferecidos em troca de suposto 'bom comportamento' e 'merecimento'. É comum assistirmos crianças aos berros gritando que querem isso ou aquilo, mas que ao término do primeiro dia estão entediados com a maioria dos brinquedos que ganharam, e os encontramos em geral jogados e quebrados num canto qualquer. 

Saindo das ruas e indo para a intimidade as coisas não melhoraram muito. Se as reuniões estão ruins no início, ficam a beira no insustentável quando a noite avançou, a bebida aumentou e a comida esfriou: o assunto acaba, as alfinetadas começam e o tédio se instala.
Em geral, são aquelas reuniões onde seres que estão apartados há anos se encontram e precisam assim permanecer até que toda a comida ou bebida acabe. Não preciso terminar o roteiro: todos sabem onde ele vai dar. E não é novidade para ninguém como estas noites terminam.
As coisas podem ficar ainda pior, se o dia seguinte continuar a requentar conversas ao mesmo tempo em que se consume o que restou da noite anterior.

Mas ainda não fomos para aquele que substitui o aniversariante em protagonismo:
O pobre infeliz do Papai Noel tropical além de vestido com aquele pijama vermelho horroroso tem que aguentar toucas e botas que imitam peles.... num pais onde temos temperaturas, a esta altura, de quase 40 graus! Sem contar os que ainda precisam aguentar perucas, barbas falsas, e enchimentos para a barriga.

E ainda não é o fim do poço, pois há as decorações! Ah as decorações natalinas! Como conseguem reunir tudo o que há de mau gosto em motivos, cores e miniaturas?! Ficam piores quando tentam usar algodão para imitar neve ou papel picado para simular uma nevasca.
E as renas?! Como explicar o que é uma rena???? Aí temos a descontextualização somada ao mau gosto... simplesmente não aguento... 

Mas ainda há as músicas e jingles. Alguém é capaz de circular por um shopping e pelas ruas sem enlouquecer?
É demais para mim....
Muito além do que sou capaz de suportar.


E o "amigo secreto"?! Como esquecer? Quem pode suportar tamanho desconforto? Em casa, no trabalho, com amigos de clube ou esquina, a brincadeira atordoa pela inconveniência  e por revelar como se pode entrar choque de uma só vez consumo, desinformação e empatia. Ninguém por mais tempo que permaneça com outro sabe adequar informações que possui sobre este ser que lhe coube num papelzinho com a devida empatia, sem destinar-lhe o vexame de receber aquilo que nada tem que ver com ele e ainda ter que agradecer!
Alguns dirão: "mas é voluntário, você entra porque quer". Mas experimente tentar se esquivar e logo verá que a 'opção' não é tão democrática assim.
Atire a primeira pedra quem nunca sentiu vergonha alheia e constrangimento nestas horas. Anos se sucedem, e parece que os grupos não aprendem nada sobre seus 'amigos'... 


O pior é que este tormento, em função do consumismo, tem chegado cada vez mais cedo e os temos de enfrentar já no final do mês de Outubro.

E como não poderia deixar de ser temos a ampla gama das pessoas: totalmente alienadas acham que o feriado é a desculpa perfeita para beber até cair e comer até vomitar! É um espetáculo tosco, pois mostra o quanto ainda a barbárie orbita os humanos e o quanto estamos próximos de instintos tão primitivos.

E aí o pobre Jesus nem é mencionado em lugar algum: não está nas rodas de conversa, não é lembrado ou citado em nada. Valores que deveriam ser relacionados à data passam longe de ser praticados.As pessoas avançam sobre a orgia de comidas e nem se lembram de que seria um bom momento agradecer, fazer uma prece. O alimento está ali apenas para a satisfação dos sentidos mais carnais. Passam longe de um sentido de conexão com o sagrado. Uma mesa posta em meio à uma selva teria a mesma reverência de leões e leopardos.

Fico imaginando que, se pudéssemos fazer uma nuvem de tags dos dias que antecedem o Natal e o próprio feriado teríamos como palavras principais e pela ordem as seguintes: cerveja, churrasco, peru, pernil, carne, panetone, presente, amigo secreto.... Jesus, amor, fé, compaixão, etc, etc... não apareceriam na lista.

Se duvidar, faça você mesmo as tags do seu feriado...  
Mas como para tudo o que é geral, existe as exceções, espero que você esteja entre aquela minoria de talvez 1% da população, que de fato tem nesta ocasião um bom motivo de estar em família, e usufruir este convívio de forma equilibrada, em sintonia de amor, paz, alegria e compaixão. Se assim for, é um grande felizardo: parabéns por integrar grupo tão seleto!


Aos outros 99% só desejo que não meçam a felicidade desta data pela quantidade de álcool que consumiram ou pelo tamanho da fatura a ser paga em janeiro do cartão de crédito. Os dois casos só dão dor de cabeça e colaboram imensamente para o enriquecimento da indústria farmacêutica!

De minha parte, o conto de Natal que quereria ver era o que libertasse todos de suas algemas de supostas felicidades natalinas:
  • ninguém teria que dar ou receber presentes que não quisesse; 
  • ninguém teria que assistir espetáculos inconvenientes patrocinados por taxas alcoólicas beirando ao coma; 
  • aquele Papai Noel fake totalmente liberto daquele pijama vermelho, com seus gorros e toucas; 
  • que a comida fosse farta em mesas bem arrumadas o ano inteiro;
  • que encontrar toda a família e tirar disso prazer fosse a regra do ano inteiro e não um dia específico;
  • que brinquedos nunca fossem usados como moeda de troca e suborno por bom comportamento, ou uma forma velada de suprir culpas e abandonos;

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30 de out de 2017

Algorítmos como grilhões para Conhecimento e Inovação

Por: Eliana Rezende


Há tempos venho pensando, e com certo incômodo, sobre de que forma o Marketing e todo seu arsenal de ferramentas digitais é em última instância um limitador para a produção de Conhecimento e Inovação.

A partir do desenvolvimento de ferramentas com fins claros de determinar perfis, gostos, nichos e vontades dos consumidores uma lógica perversa se deu.
Observe:
Todas as vezes que realizamos uma busca, qualquer que seja, imediatamente algoritmos começam a selecionar quais as respostas que são as nossas preferidas, e dia-a-dia, pesquisa após pesquisa começam a aprender sobre nosso perfil, nossos gostos e desgostos. Isso por si só não seria o problema. O problema piora logo a seguir, pois para haver uma customização de nossos gostos e preferências, quase sempre somos levados aos mesmos lugares e quase que invariavelmente, às mesmas velhas respostas. É a famosa existência dentro de uma bolha.


Quase sem notarmos estaremos fornecendo um padrão de comportamento que ao incluir determinadas opções exclui uma outra gama de possibilidades e alternativas diversas.

Vista sob esta ótica, a internet é portanto, finita e cerceada.
Explico:
As opções são infinitas até a primeira pergunta lançada em um buscador. A partir daí somos levados a andar por caminhos escolhidos por nós e armazenados por algoritmos. Quanto mais eficientes forem, mais nos tirarão possibilidades e caminhos inusitados. Andaremos em círculos, visitando sempre os mesmos lugares, pessoas, respostas, atividades, temas...

Nesta construção, as possibilidades de inovação e de sermos apresentados a algo completamente novo e diferente reduzem-se cada vez mais, a quase zero.

Uma vitória para as áreas de Marketing que querem em verdade vender um produto, ao mesmo tempo em que nos transforma em um. Embalados e vendidos ao mercado para sermos potenciais consumidores deste e daquele produto. Os algoritmos acabam por tornar a liberdade um produto quadrado e previsível, repetido infinitamente.

É uma lógica sem benefícios para nós usuários em uma primeira instância, mas com certeza a todo o conjunto da sociedade em um nível e alcance ainda maiores.

Ao acontecer esta lógica de mercado, ergue-se o muro contrário a toda e qualquer possibilidade de produção de Conhecimento e Inovação de forma espontânea. A internet, seus algoritmos e buscadores, fazem o contrário do que Conhecimento e Inovação necessitam. Afinal excluem o novo, o diferente, o inusitado. Levam-nos sempre aos mesmos lugares e por consequência às mesmas respostas e caminhos. Sair deste circulo vicioso e tortuoso requer por parte do que busca Conhecimento e Inovação é um esforço extra: significará muito autoconhecimento.
Precisará se ter consciência do quanto está limitado dentro destes caminhos para tentar fugir desta  lógica cega e consumista tão favorecida por algoritmos, e tão amplamente usada pelo Marketing em geral.
E ainda não incluo aqui um outro conceito que é o de invenção. Muitas vezes até confundido com inovação. Mas que não é o caso aqui.
A inovação não necessariamente requer uma invenção! Na maior parte das vezes eles exige muito menos de quem a propõe, já que esta baseia-se em algo que já existe e faz simplesmente uma adequação, ampliação, um novo uso. Mas mesmo tomando-se a conceituação de inovação neste sentido, ainda temos muita limitação gerada pela forma como hoje buscadores e diferentes áreas se utilizam destes algoritmos. 

Daí a afirmação que, ao invés de estarmos com alto grau de desenvolvimento tecnológico e de grandes descobertas, na verdade andamos às voltas com os mesmos lugares, respostas, caminhos. Em pouco tempo teremos um universo feito de restrições potenciais que só poderão ser quebradas por sujeitos conscientes e independentes. Algo cada vez mais raro, já que as pessoas cada vez mais delegam a botões, buscadores e algoritmos o que pensam ser a melhor escolha. O estatuto de "verdade" que grandes buscadores como Google alcançam no imaginário popular é avassalador e ao mesmo tempo destrutivo enquanto potencialidades.

E mesmo para as áreas de Marketing, que em teoria deveria prezar muito a inovação, ver-se-ão em pouco tempo igualmente restritas a um dado espaço e com um determinado perfil de usuário/cliente. E o que é mais grave: com quase ou nada a oferecer de novo, já que as grandes inovações tenderão cada vez mais a ser recusadas pela massa complacente de apertadores de botões e mesmices.

De outro lado, esta mesmice a que me refiro não se encontra apenas dentro da internet, encontra-se também nos meios que usamos para a utilizarmos. É só prestar atenção: desde que foram inventados computadores e celulares temos exatamente as mesmas telas, botões, funções.
Olhe os teclados: sempre os mesmos, olhe a sua sequencia...sempre as mesmas.
Observe o que cada tecla faz, e descobrirá que são sempre as mesmas coisas.
Os computadores não deixam de ser as mesmas caixas retangulares que nossos avós viram nascer a televisão, ou retroagindo um pouco mais os rádios. Telas escuras que reproduzem sons e imagens...
É uma caixa onde entretenimento é oferecido para se passar o tempo.

Até mesmo a forma de usarmos o telefone, suas teclas e sons são exatamente as mesmas e que já vem de muito longe, provavelmente desde a máquina de escrever. Não importa se seu aparelho é um iPhone de última geração ou aquele vendido em qualquer galeria de contrabando... não há inovação! Funcionam exatamente da mesma maneira. E o pior de tudo, é que não haverá mudanças substanciais. Em verdade, tais tecnologias precisam ser pobres, medíocres para que possam ser consumidas em larga escala. Trabalhar para a inovação aqui é segundo esta ótica, contraproducente. Como inovar a tal ponto que as pessoas simplesmente deixem de consumir porque não sabem como utilizar?
Donde se deduz que temos a tecnologia não para inovar, mas para atrofiar mentes e comportamentos, nada além disso.
Simples assim...

E ainda precisamos falar das "prisões" propiciadas por plataformas, aplicativos e outros brinquedos. Mantém entretidos e dispersos boa parte destes usuários desavisados. Assim, gigantes como Facebook mantém reféns seus usuários impedindo que saiam de seus domínios, não permitindo, por exemplo, que vídeos, matérias e outros recursos sejam notados por seus algoritmos. O usuário, sem perceber, só lê, assiste e visualiza o que é produzido e gerado ali dentro. E de lá só sai quando seu aparelho é desligado por falta de carga, pois em geral, as pessoas nem desligam mais seus aparelhos.
A sensação que tenho olhando isso tudo é a de que ofereceram uma prisão numa ilha com grades de frente para o mar. Esta é imagem que tenho. O prisioneiro ali dentro acha que tem um horizonte imenso à sua volta, no entanto está ali só e aprisionado.


Como dito por Lionel Bethancourt: "a tecnologia que nos deveria dar asas, acaba por nos impor grilhões", e acrescento: com nosso consentimento e busca. 

É para se pensar...

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