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Mostrando postagens de janeiro, 2014

O papel e a tinta por Da Vinci

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Por: Eliana Rezende Certo dia, uma folha de papel que estava em cima de uma mesa, junto com outras folhas exatamente iguais a ela, viu-se coberta de sinais. Uma pena, molhada de tinta preta, havia escrito uma porção de palavras em toda a folha. — Por que você não me poupou dessa humilhação? — perguntou, furiosa, a folha de papel para a tinta. — Espere — respondeu a tinta —, eu não estraguei você. Eu cobri você de palavras. Agora, você não é mais apenas uma folha de papel, mas sim uma mensagem. Você é a guardiã do pensamento humano. Você transformou-se num documento precioso! E, realmente, pouco depois, alguém foi arrumar a mesa e apanhou as folhas para jogá-las na lareira. Mas, subitamente, reparou na folha escrita com tinta, e então jogou fora todas as outras, guardando apenas a que continha uma mensagem escrita. A fábula traz em si o sentido de como o processo de produção origina um documento e com isso um testemunho para o futuro.   Todos os que trabalham com as...

Consumidores ou Coletores de Informação?

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Por: Eliana Rezende Será que pensar dói? Será algo incapacitante? Tome o tema como uma "provocação" sadia... O ponto de partida do autor Neal Gabler , da Universidade do Sul da Califórnia é uma constatação desconcertante: vivemos em uma sociedade vazia de grandes ideias, leia-se, conceitos e teorias influentes, capazes de mudar nossa maneira de ver o mundo. Em sua argumentação, nós anteriormente coletávamos informações para construir conhecimento. Procurávamos analisar e explicar o que havia à nossa volta. E a partir daí construíamos grandes ideias: conceitos e teorias capazes de mudar a compreensão do mundo. Em sua perspectiva, o que vem inviabilizando a produção de conhecimento é exatamente o excesso de informação. Numa inversão não muito qualitativa, substituímos a produção de conhecimento pelo excesso de informação. Em contrapartida, tudo o que não pode ser rapidamente transformado em lucro é abandonado rapidamente. Quando li este artigo em um voo, fiqu...

As faces de Sampa

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Por: Eliana Rezende Sampa amanheceu com um frescor próprio de outono, com céu azul e uma temperatura amena. Reencontro-a paralisada ainda por uma greve nos transportes. Talvez por isso, acorda devagar, com ritmo mais lento e preguiçoso Suas ruas e avenidas dão espaço para que mais corpos trafeguem sobre ela, sem serem interrompidos pelas chapas metálicas dos transportes coletivos, ou pelos fios dos elétricos que circulam por suas avenidas betumizadas e pelas edificações que se fecham como muralha, que tentam por seus deslocamentos aproximar pessoas e encurtar distâncias... Os corpos se movimentam em diferentes ritmos: uns mais lentos, em passos vagarosos e sem pressa, imprecisos e incertos. Outros agitados e apressados buscam vencer distâncias com passos firmes e determinados: driblam obstáculos, outros corpos, outros passos. Dos subterrâneos desta Sampa o Metropolitano cruza as distâncias e caminhos feitos de ferro. Ferro sob concreto... Do concreto surge a multidão...

Flores outonais do nosso cérebro

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Por: Eliana Rezende Tempos atrás lia sobre como o cérebro de meia-idade pode ganhar habilidade surpreendentes conforme envelhecemos, mas isso não ocorre para todos . Apesar disso, uma ressalva: só quem sempre manteve hábitos saudáveis e vida intelectual ativa conseguem essa tão desejada superativação. O cérebro parece escolher dar menos atenção ao lado ruim da vida.  Há nisso mais inteligência e sabedoria do que um cérebro jovem talvez seja capaz de perceber. Acho fantástica essa perspectiva que a vida, o tempo, nossos neurônios e toda essa composição podem oferecer a nosso intelecto e a nossa essência. Outono em Madri O tema sempre encontra eco: até porque todos os que se mantém com atividades sentem essa forma que a vida encontra para dar-nos dias ao mesmo tempo em que o intelecto deixa de competir com o físico, e descobrimos que apesar das marcas da vida, a sabedoria dos anos nos faz bem melhores.  Dá-nos um certo apaziguamento da alma saber que crescer em...

O valor da Memória Institucional no Universo Organizacional

Por: Eliana Rezende Em outro post procurei explicar minha abordagem para Gestão Documental e sua importância no universo institucional. Nesta oportunidade, gostaria de introduzir o tema Memória Institucional, sua importância no universo corporativo e de que forma a vejo e proponho. O tema Memória Institucional é extenso e possui pontos de contato com diferentes temas. Por isso, optei por tratar cada um deles num formato que denominei de "pílulas" e que se distribuirão num decurso de várias postagens. Acho que isso facilitará sua abordagem e imprimirá sentido para os que começam a se debruçar sobre este tema. Como introdução, diria que a Memória Institucional necessita de um trabalho interdisciplinar e que tem na informação sua principal matéria-prima. Estas informações precisarão ser resgatadas, organizadas para depois poderem ser disponibilizadas. De acordo com isto, é fundamental ser pensada de forma sistêmica. Com a observância de princípios metodológicos oriun...

Telhados de Lisboa

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Por : Eliana Rezende Pela janela uma chuva miúda e mansa cai e me remete  directo a um saudosismo irresistível.  Penso em Lisboa  e na humidade que cobre encostas e telhados de  diferentes cores, nas ruas sinuosas e encharcadas que  transformam passos transeuntes em escorregadios e  incertos, nas folhas das árvores que balouçam  resistindo ao vento que corta e penetra corpos,  fazendo sentir-se na pele sua força e seu "toque"  invisível.  Lembro das calçadas em pedra, desenhadas e  dispostas como mosaicos enfeitando como passarela  ruas, becos e vielas cheias de vida, memória e  história.  Lembro das águas tristes e plácidas de um  Tejo em dia de nuvens, quando o céu se desabotoa e as  águas de cima encontram as águas de baixo e juntas  desembocam e encontram o mar.  Tão bonito!  Escrito por:Eliana Rezende - São Paulo, 2003 Lembro das cores de Lisboa: o laranja, o...

Os Historiadores e suas fontes em tempos de Web 2.0

Por: Eliana Rezende Em geral, textos que abordam o ofício do historiador pretendem trazer em seu bojo aprofundamento de questões metodológicas ou mesmo de caminhos investigativos. Devo confessar que não é meu intento! A proposição aqui é muito mais expor uma inquietação provocativa e lançar aos futuros historiadores questões em relação ao seu trabalho e investigação com as fontes produzidas na contemporaneidade de princípios do século XXI. É da minha lida com a preservação e conservação de fontes documentais para posterior consulta e produção de pesquisas que suportam investigações e caminhos que este ensaio nasceu. Tais preocupações com acervos em diferentes instituições impõem a reflexão e aplicação de metodologias e procedimentos que garantam o acesso à informação contida em documentos sob os mais variados suportes  para as gerações futuras. O historiador lida com fontes: pequenos indícios deixados voluntária ou involuntariamente que atravessam épocas, transpõem espaç...

Palavras vincadas

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Por: Eliana Rezende Houve tempos em que a gaveta era o melhor amigo de um escritor.  Era ali que o texto adormecido esperava seu tempo de maturação, ou até seu tempo de descarte: do não dito e escrito. As palavras assim esperavam adormecidas e quietas, o tempo em que a tinta as materializasse e lhes propiciasse vir à existência. Palácio de Alhambra - Granada - Espanha O texto adormecido na gaveta esperava sua sentença que podia vir cedo. Num acesso de fúria e destruição ou num período de limbo expiatório. O melhor mesmo era quando recebia sua emancipação e tornava-se um texto livre à olhos alheios. Sim, os textos nos tempos de imediaticidade e consumo deixaram de ter essa maturação da escrita pensada e recomposta dia a dia. Literalmente lapidada para, palavra por palavra compor um pensamento inteiro. O sentido de escrita original gradativamente se perdeu e o que temos é uma que se insere substituindo e anulando a anterior. Descartes simples e rápidos que não n...