Trincheira das palavras
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Desafiam, instigam, maquiam... e, em tempos
contemporâneos, provocam verdadeiras plásticas em sentidos e objetivos. Palavras
que carregavam seu sentido e essência veem-se alteradas e modificadas em uma
forma de sequestro de significados, uma assepsia acéfala.
A
provocação aqui está em exatamente mostrar o quanto foram extirpados dos nossos
dicionários termos como velhice, morte ou afins. O quanto se domestica aquilo que
é natural e que de fato fecha um ciclo do que integra a
existência.
Defendo o uso de tais palavras, livre de trincheiras, plásticas, maquiagens!
Quero tudo aquilo que faz parte da vida e entre elas estão às marcas que o tempo me fez (quer na face, quer na alma), a experiência acumulada pela velhice dos meus anos e porque não dizer que quero a Boa Morte... no sentido da dignidade do encontro com um fim? Que tenha dignidade e naturalidade de viver isso sem intermediários: tubos, máquinas ou mesmo palavras que roubem o sentido daquilo que de fato se vive. Pois morrer e envelhecer são parte, negar isso é contradizer o que é natural.
Nossa sociedade está se habituando a mudar nomes como uma interferência asséptica, esquecendo-se que, envelhecer e morrer, possuem seus sentidos e significados, mudar as palavras não tira o sentido que eles têm.
Por isso, sou adepta de me chamarem como a vida assim quis. E se estiver velha, que me chamem de velha!
Talvez uma das formas que o mundo
contemporâneo usa para não enfrentar posicionamentos é exatamente nominar as coisas de
outras formas. O enfrentamento não ocorre e as trincheiras das palavras servem apenas para dar sentidos outros ao que verdadeiramente se sente.
A sociedade que persegue a beleza das formas e a juventude infinita, se esquece de que o tempo é sinônimo do acúmulo e que para a maioria dos casos tornariam as pessoas melhores, mais tolerantes e com uma capacidade de interação maior, sem agressividades ou desrespeitos.
Infelizmente o tempo não faz isso a todos e ferir pelas palavras passa a ser um meio subalterno de tentar chamar atenção para si. Um recurso de fato pequeno e que põe luz sobre dificuldades de lidar consigo próprio e com o outro, nas relações pessoais, sociais e até profissionais.
A velhice e a morte são faces da mesma moeda chamada vida e tê-las conosco é sinal de que entendemos o que todo um ciclo significou. É a moeda de troca que nos dá o simples direito de existir.
Certa vez um integrante de Grupo, o Professor Emicles Manguinho Filho, me disse algo lindo: que na Bahia (mais especificamente no interior), comunga-se com essa forma de pensar, porém, os poetas interioranos, na sua simplicidade, usam como sinônimo para o idoso do texto o termo "veiança".
Achei absurdamente fantástico isso! Longe de ser uma maquiagem que tenta trazer uma plástica de sentido, "veiança", ao contrário é uma bela palavra, em especial se tomarmos o seu sentido de produção cultural. Algumas palavras funcionam como roupagem e adorno para o sentido do que queremos transmitir.
Assim, "veiança" é uma delícia de fato!
Mas no mundo corporativo não é bem assim.
É comum o uso de palavras que chegam emprestadas de outras línguas, que camuflam e sofisticam fazeres sem conteúdo: a falácia da igualdade de programas de inclusão mal conduzidos, que acabam por segregar os diferentes; a responsabilidade social reduzida à uma ação assistencialista a comunidades, passando longe do ideal de desenvolvimento; o discurso da qualidade de vida no trabalho, enquanto se extraem sangue diretamente da jugular dos executivos, consultores e funcionários...
Nestes espaços, seus velhos são chamados de sêniors e rapidamente o mercado tenta substituir seus cabelos brancos por Júniors, recém chegados de seus MBAs.
Velhos e jovens são complementares, imprescindíveis uns aos outros na vida e nas organizações. E não vale dizer, por exemplo, que os velhos são a experiência enquanto os jovens trazem a inovação.
Os papéis se invertem, se acrescentam, compõem entre si e não admitem reducionismos, que só fazem imobilizar.
Os papéis se invertem, se acrescentam, compõem entre si e não admitem reducionismos, que só fazem imobilizar.
Talvez por isso, ocorra a substituição do “sênior” por um “jovem talento” (palavras que tentam sanear espaços corporativos, dando-lhe um verniz feito de novos termos para velhos nomes, funções ou atribuições). Sênior e Júnior não podem ser tomados como antônimo um do outro!
Há muito mais.
A reflexão neste sentido é fundamental e nos deve fazer pensar. É fato que não mudamos uma sociedade inteira da noite para o dia, mas criar zonas de crítica e percepção é o mínimo que se deve esperar de profissionais atuantes e preocupados com a sua inserção, e a de outros.
Há também uma outra abordagem.
Há um componente que é a dimensão de autorrepresentação e de como as pessoas querem ser vistas, algo parecido com a palavra negro/a. As pessoas tendem a por ressalvas e não gostar que lhe chamem velho. Toma-se como uma forma menor de adjetivar, já que convivemos numa sociedade em que a tirania do sempre novo se impõe como necessidade de aceitação.
Isso de fato preocupa.
Há um componente que é a dimensão de autorrepresentação e de como as pessoas querem ser vistas, algo parecido com a palavra negro/a. As pessoas tendem a por ressalvas e não gostar que lhe chamem velho. Toma-se como uma forma menor de adjetivar, já que convivemos numa sociedade em que a tirania do sempre novo se impõe como necessidade de aceitação.
Isso de fato preocupa.
Vejo a necessidade de (re)significação no sentido de utilização de um termo que não merece "saneamento ou assepsia", merecia ter seu sentido inicial. O que ocorre é que essa (re)significação deve partir do individuo, de se assumir como tal, em primeiríssimo lugar e, sem culpa ou desculpas utilizar socialmente o termo aos demais quando for o caso.
Mas sem dúvida, a escrita para consumo social coloca dia-a-dia o emprego das palavras, seus significados e apropriações culturais e sociais. O escrito nunca é igual ao lido, e por ter a interpretação do outro pode gerar ruídos.
Inquietam-me relações, sejam elas sociais, culturais, profissionais e até as midiáticas!
Para além do humano dou especial atenção a escrita e as muitas manifestações possíveis de comunicar pensamentos, ideias e as trocas, em especial as simbólicas: já que nossas moedas de troca e valor passam essencialmente pelo pensamento partilhado e compartilhado.
Por esta minha postura, já me disseram que isso seria conformismo: render-me a velhice e à morte.
Mas não é conformismo; É simplesmente considerar que é parte de um grande ciclo. E que como tais merecem ter começo, meio e fim.
Não aceitá-las pode gerar em alguns certo amargor e isso não é bom nem para o individuo, nem para os que o cercam. Se tomarmos como parte, a velhice, passa a ser libertadora.
Aprendemos que somos os nossos melhores e mais presentes companheiros e que quando todos se forem, nós estaremos ali habitando nossa alma e povoando nossos mundos que existem por meio de nossos pensamentos.
Libertamos-nos do compromisso de "o que você vai ser quando crescer?". Libertamo-nos da ansiedade de não saber o que resultará em nossas vidas, os amores que teremos, a vida que viveremos.
É bom saber que o Tempo pode ser um grande aliado da vida que temos e da existência que partilhamos. E quiçá das rugas que teremos
A antropóloga Miriam Goldemberg, em suas pesquisas sobre o comportamento humano, colheu que o mais importante seria a qualidade das rugas e não a sua quantidade. Disse ela que o riso e o sorriso continuado, provoca rugas, porém, rugas com orientação para cima; diferentes das rugas convencionais.
Não aceitá-las pode gerar em alguns certo amargor e isso não é bom nem para o individuo, nem para os que o cercam. Se tomarmos como parte, a velhice, passa a ser libertadora.
Aprendemos que somos os nossos melhores e mais presentes companheiros e que quando todos se forem, nós estaremos ali habitando nossa alma e povoando nossos mundos que existem por meio de nossos pensamentos.
Libertamos-nos do compromisso de "o que você vai ser quando crescer?". Libertamo-nos da ansiedade de não saber o que resultará em nossas vidas, os amores que teremos, a vida que viveremos.
É bom saber que o Tempo pode ser um grande aliado da vida que temos e da existência que partilhamos. E quiçá das rugas que teremos
A antropóloga Miriam Goldemberg, em suas pesquisas sobre o comportamento humano, colheu que o mais importante seria a qualidade das rugas e não a sua quantidade. Disse ela que o riso e o sorriso continuado, provoca rugas, porém, rugas com orientação para cima; diferentes das rugas convencionais.
Aqueles que têm lá suas dificuldades tentam
maquiar, "botocar"...esconder.
Quem já não viu a exposição que chega a ser
patético de pessoas que querem ter uma idade que não têm: pintam o cabelo,
cortam-no como quando tinham 20 ou anos ou pior: usam as roupas desse tempo e
ainda insistem com a sessão juvenil das lojas de departamento?
Saber rir das próprias limitações é também se ver como velho, mas nem por isso como algo a ser descartado sem importância!
Uma vez me disseram algo que só agora
entendo: "Eliana, minha cabeça pensa como quando eu tinha 20
anos... meu corpo é que tem 70!".
Inúmeras vezes me olho no espelho e me lembro exatamente do que eu pensava aos 5 anos de idade quando minha altura só permitia
que eu visse meus olhos refletidos no espelho da cômoda do quarto da minha mãe. Acho que a mente não
envelhece... o corpo é que não entende bem e segue acumulando os anos!
Mas se assim é, porque então mudar seus nomes? Usemos as palavras para significar o que precisam significar. Não as usemos como trincheiras para esconder ou maquiar.
Afinal, quem precisa de plástica para as palavras?
__________________________________
Profissionais na maturidade como ativo organizacional
Contradições em vidas modernas
Uma sociedade de performance
*
Mas se assim é, porque então mudar seus nomes? Usemos as palavras para significar o que precisam significar. Não as usemos como trincheiras para esconder ou maquiar.
Afinal, quem precisa de plástica para as palavras?
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Concordo plenamente... é como a ministra que disse ser preconceito tecer comentários desairosos sobre negros, mas que isso não se aplica aos brancos
ResponderExcluirOlá M@ de Fátima...
ExcluirIsso mesmo!
Se notou o post tem duas narrativas: uma que tem que ver com palavras tabus e que envolvem aceitação pessoal e outra é a narrativa do "politicamente correto". Palavras banidas pelo politicamente correto mutilam sentidos e o maior dos preconceitos não está na palavra e sim no significado que lhe atribuimos e sentimos em relação a ele.
Por isso, usar tais palavras é libertador... tiramos de nós a pecha do preconceito e atribuimos o significado que de fato possuem.
Abs
Eliana, excelente artigo. Bem disse a Eliane Brum - que me chamem de velha, não de idosa!
ResponderExcluirOl@ Carlos....
ExcluirSim vc tem razão.
Qdo falei a frase foi pensando na crônica dela.
Não tenho problema com nomes ou palavras!
Preocupo-me sim com sensações, sentimentos, "queiranças"....
Abs